Como os fundos multimercado se encaixam na sua carteira

Com a queda da taxa básica de juros, ocorre na cabeça de vários investidores a vontade de otimizar melhor sua carteira. Afinal, é fácil encontrar anúncios sobre o como virou arriscado ser conservador. A afirmação é totalmente verdadeira, uma vez que os investimentos mais conservadores, como fundos de renda fixa, podem ter inclusive juros negativo. 

Pode parecer estranho, uma vez que em geral, o primeiro objetivo do investidor conservador é se proteger de riscos ao seu patrimônio. 

O fenômeno de juros negativos nos fundos de renda fixa ocorrem por conta das taxas de administração que por vezes são abusivas, principalmente se tratando dos veículos presentes dentro dos grandes bancos. 

Com uma Selic a 5%, fica difícil um fundo de renda fixa render mais do que 6% ao ano. Se descontarmos a taxa de administração que pode chegar a 4% ao ano, o investidor ficaria com 2%. Depois de subtraída a inflação e pago o imposto de renda, o investidor terá um poder de compra menor do que no momento em que investiu. 

Foco em plataformas abertas

O cenário exige uma inteligência financeira maior dos investidores, para que consigam balancear melhor sua carteira e se expor aos riscos certos. O primeiro passo é sair dos grandes bancos e passar a investir em plataformas abertas de investimentos. 

Os fundos disponíveis nas plataformas tendem a cobrar taxas mais condizentes com o justo. O segundo passo é entender de que forma uma carteira é bem montada.

O objetivo hoje é explorar os fundos multimercado e de que forma eles se encaixam na sua carteira. 

A carteira dos multimercado

Essa categoria de fundos tem a liberdade para investir em praticamente todas as classes de ativos financeiros: ações, juros, crédito, câmbio etc. Isso garante aos multimercados uma multidisciplinaridade interessante.

Como o ambiente de investimentos é muito grande, buscamos classes para categorizar os multimercados. O mais comum é encontrar a divisão por volatilidade. Existem, portanto, os multimercado de baixa, média e alta volatilidade. 

A carteira do investidor

O investidor, que agora sabe que precisa se expor um pouco mais aos riscos, decide que vai migrar uma parte de seus investimentos, que antes se concentravam na renda fixa, para os fundos multimercados. 

A atitude é muito bacana. No entanto, a escolha de produto é ainda mais importante. É comum neste caso que o investidor opte por um fundo multimercado de baixa volatilidade. Como ele sempre foi investidor de renda fixa, é provável que tenha aversão a chacoalhadas do preço, mesmo que isso possa significar nada no longo prazo. 

O racional é o seguinte: Vou colocar uma parte nos de baixa volatilidade, assim, consigo me expor um pouco mais a risco e tento ganhar um pouco mais. 

A verdade é que essa estratégia dificilmente fará muita diferença no resultado final da carteira. Como os multimercado de baixa volatilidade têm o mandato apenas para aquela categoria, eles fazem de tudo para que tenham oscilações pequenas em suas cotas. 

A maneira de fazer isso é se entupir de títulos de renda fixa de baixíssima volatilidade, sobrando pouco espaço para que o gestor possa correr risco de fato. Ora, não existe almoço grátis, se o gestor não correr riscos, ele também não entrega retorno. É por conta disso que os fundos multimercados de baixa volatilidade apresentam um retorno parecido aos fundos de renda fixa. 

Mas na verdade, o cenário começa a ficar crítico agora: algo que vem caindo em desuso nos fundos de renda fixa, são as taxas de performance. No entanto, ela ainda é praticamente unanimidade nos multimercados, independentemente da volatilidade. 

Desta forma, existem dois cenários para o investidor: caso seu fundo performe bem, ele receberá não muito mais do que na renda fixa, uma vez que o rendimento não será muito superior e a taxa de performance ainda vai comer uma parte da rentabilidade. 

O segundo cenário é o caso de o fundo performar mal. Neste caso, o investidor perde mais do que perderia nos fundos de renda fixa, uma vez que a volatilidade do multimercado é maior e ele se expõe mais a riscos. Infelizmente para o investidor, o gestor não paga a ele uma taxa em um ano de performance ruim. 

Como é possível perceber, o sistema de incentivos não está favorável do lado do investidor. 

Qual a alternativa?

Usando o mesmo exemplo, imagine que você investidor conservador decidiu que irá destinar 20% dos seus recursos para os fundos multimercados. Mas relembrando, o investidor conservador tem aversão às chacoalhadas na cota. 

A solução seria, portanto, destinar apenas 10% dos recursos aos multimercados. No entanto, este recurso iria para os multimercados média/alta volatilidade. O objetivo seria dar espaço para o gestor para que ele consiga montar posições de riscos, como apostas na bolsa de valores. 

O investidor ainda assim estaria protegendo seu capital, visto que 90% ainda continua na renda fixa. Os outros 10% podem ir para o risco. Não faz sentido colocar 20% em um fundo de baixa volatilidade, para que ele compre títulos de renda fixa majoritariamente e ainda cobre uma taxa de você para isso. 

O ideal é investir em um fundo de alta volatilidade, onde o gestor pode, além de ganhar dinheiro para ele, através das taxas de administração e performance, ganhar dinheiro também para você cotista. 

Extra: investir é uma maratona, não uma corrida de 100m

Fiz questão de colocar esta sessão aqui hoje. Frisei em alguns pontos deste artigo o quanto os investidores, por vezes, são averso à volatilidade. 

Primeiramente, cabe a definição de que volatilidade não é risco. Volatilidade apenas ilustra a interação entre compradores e vendedores. Risco aqui encaramos como risco de perda de capital. As torres gêmeas não tinham volatilidade alguma, mas será que podemos dizer que não existia risco algum de um atentado terrorista para derrubá-las? 

Agora partindo para o que realmente interessa, é muito importante que o investidor tenha a cabeça no longo prazo. Em geral, as chacoalhadas dos preços das ações ou das cotas dos fundos de investimentos, são apenas pequenos solavancos de uma grande tendência de alta. 

Não dá para imaginar que a subida será constante. Inclusive os maiores bull markets contam com quedas significativas no curto prazo, mas que se olhadas de longe, significam pouco em todo o processo de subida. 

Imagine o seguinte: até hoje, sua vida foi apenas formada de bons momentos? Acredito que seja mais provável que houveram alguns momentos de baixa, mas que você tenha evoluído tanto desde o dia em que nasceu, que olhando para trás, esses momentos de baixa são apenas pequenos vales. 

Nos investimentos é a mesma coisa: os mensageiros do apocalipse te venderão que o mundo está às portas de um crise nunca antes vista neste mundo. Em geral esse tipo de mensagem serve apenas para vender jornal e não passa de uma pequena turbulência.

Fundos de Investimento em Ações: entenda as estratégias

O ano de 2019 está quase chegando ao fim e foi um período importante para o panorama de investimentos no país. A bolsa brasileira, pela primeira vez na história, alcançou mais de um milhão de investidores. O principal índice de ações do país, o IBOVESPA, ultrapassou a barreira dos 100 mil pontos. Além disso, a poupança registra uma saída nunca vista antes, fluxo que tem direção para outros investimentos, como por exemplo, a bolsa.

Sendo assim, o ânimo com a bolsa brasileira é nítido em qualquer noticiário do país. Somado a isso, o desejo de investir em ações passa pela cabeça de muitas pessoas ao nosso redor. É muito comum ouvirmos amigos, familiares ou colegas de trabalho dizendo que não sabem investir em ações. 

Quando ouvirmos falar de alguém que investe em ações, ficamos pensando se não estamos perdendo tempo, se quiser saber mais sobre o tema, temos este artigo sobre o ânimo com a bolsa. No entanto, não é todo mundo que possui a confiança, o tempo e os recursos necessários para investir diretamente na bolsa.

Investindo em ações através de Fundos

Porém, existe uma forma de investir em ações de maneira muito mais fácil: os fundos de investimento em ações, mais conhecidos como FIA. Os fundos de investimento possuem uma vasta variedade de opções para o investidor, e uma delas são os fundos focados em comprar e vender ações. 

De maneira bem simples, esses fundos, com equipes especializadas, captam recursos para investir em uma carteira selecionada de ações de empresas. Eles precisam ter, no mínimo, dois terços de seu patrimônio em ações de mercado, e cada fundo tem sua carteira e sua maneira de escolher as mesmas.

Em poucas palavras, os FIA captam dinheiro e investem em ações para você, buscando um retorno de acordo com o que é definido em seu regulamento. Ao investir neles, o investidor compra uma cota, e esse custo é muito menor do que comprar lotes de ações diretamente na bolsa. Sem falar que a carteira dos fundos possuem diversas ações de diversos segmentos da bolsa, trazendo diversidade para o investidor. 

Além disso, os FIA possuem pessoas especializadas que ficam analisando o mercado e as empresas o tempo todo. Portanto, seu objetivo é seguir ou ganhar de seu benchmark de referência, que na maioria das vezes é o IBOVESPA.

Por contar com uma equipe especializada e ser responsável por compras e vendas dos papéis, os fundos de investimento em ações cobram uma taxa para poder trabalhar. Essas taxas, na maioria das vezes, são as taxas de administração e as de performance. A primeira geralmente é em torno de 2% a 3% ao ano em relação ao patrimônio líquido do fundo. A segunda, geralmente uma taxa de 20% sobre os rendimentos, acontece caso o fundo renda somente acima de seu benchmark. 

Vale ressaltar que esses fundos trazem uma volatilidade e risco maior do que outros fundos e produtos de investimento, devido ao fato de estarem sujeitos a variação dos preços dos ativos, o que pode não ser do apetite financeiro de algumas pessoas.

Estratégias dos FIA

Para atingir seus objetivos, os fundos utilizam diversas estratégias para montar suas carteiras de ações e garantir sua rentabilidade. Você pode identificar as estratégias dos fundos nos sufixos de seus nomes ou em seu regulamento, documento mais importante de um fundo que diz tudo a seu respeito. As estratégias mais comuns são apresentadas abaixo:

  • Long Only: estratégia estabelecida por analisar empresas que possuem potencial de crescimento e geração de valor e consequentemente aumentar o valor das suas ações durante o tempo. Esses fundos, então, fazem uma avaliação das empresas, compram suas ações, acompanham seu desenvolvimento, mantendo sua posição como acionista. A norma diz que eles precisam ficar no mínimo 67% comprados e não podem operar na ponta vendedora. 
  • Long Short: estratégia realizada ao comprar um par de ações que podem apresentar uma correlação negativa. Assim, o fundo espera na valorização de uma e na desvalorização da outra. Ele atua nas duas pontas, compradora e vendedora. 
  • Long Biased: estratégia em que o fundo aposta na valorização das ações, porém pode atuar nas tendências de altas e baixas das mesmas. Eles podem, por exemplo, utilizar os aluguéis de ações para alavancar sua atuação.
  • Internacional: fundos que podem utilizar as estratégias acima, mas possui participação grande em ativos internacionais. 
  • Indexados: assim como acima, são fundos que investem nos principais índices do país para tentar replicar seu rendimento.
  • Outros: podem existir outros tipos de estratégia mais setoriais, mais focados em questões como empresas sustentáveis, empresas com grandes distribuições de dividendos, empresas menores, com bons níveis de governança corporativa (saiba mais neste artigo) e outros.

Como visto acima, podem existir diferentes estratégias para os fundos de investimento em ações. Você consegue entender mais sobre como avaliar um fundo neste artigo. Então, não existe um melhor que o outro.

O importante é sempre ler os documentos do fundo, como o regulamento e o material de divulgação, a fim de entender mais os riscos e a volatilidade, assim como sua equipe e os rendimentos que vem apresentando. Além disso, é de extrema importância que você tenha um assessor de investimentos ao lado para aconselhar e explicar os produtos de acordo com seu perfil de investidor.

Portanto, os fundos de investimentos em ações são uma ótima opção para quem quer começar a investir na bolsa de valores. São uma forma mais profissional e focada de investir, mais barata e diversificada para quem ainda não tem muito tempo e conhecimento. 

Insights: juros negativos

Certamente o fenômeno de juros negativos desafia a lógica econômica. O comum é que ganhemos juros ao emprestar nosso dinheiro a alguém. Essa é uma lição que os economistas aprendem em seu primeiro ano de graduação. 

Em um cenário de juros negativos, na verdade pagamos para que possamos emprestar nosso dinheiro. Sim, contraintuitivo. 

Apesar de estranho, o fenômeno tem acontecido em alguns países desenvolvidos, com o Japão e a Europa liderando a turma. Após a crise de 2008, na sede de recuperar suas economias, os países desenvolvidos passaram aplicar as mais diferentes formas de estímulo econômico. 

A principal arma para um país que está se recuperando de uma crise, é a política monetária a partir da taxa básica de juros. Em geral, os bancos centrais sobem a taxa de juros em momentos de economia aquecida para que consigam manter a inflação em patamares razoáveis. 

Uma alta das taxas de juros faz com que as pessoas e as empresas gastem menos, o que diminui o estímulo à inflação. 


O contrário também é verdadeiro, já que em momentos em que a atividade econômica está baixa, os bancos centrais baixam suas taxas de juros, a fim de que as pessoas e as empresas gastem mais, gerando mais empregos e aumentando um pouco a inflação. 

Em um mundo de juros negativos, os investidores de títulos de dívida, investem tendo a certeza de que no futuro, no momento do resgate, terão menos dinheiro do que hoje. 

Com o banco central definindo uma taxa básica negativa, isso guia todas as outras classes de dívidas a tender também para o campo abaixo de 0.

Só para se ter uma noção, segundo a Bloomberg, mais de 17 trilhões de dólares do mercado de crédito estão em títulos com juros negativos. O montante aumenta para US$35,7 trilhões quando falamos de juros reais negativos, quando já descontamos a inflação. 

Por que alguém iria comprar um título com juros negativos?

Os motivos são vários, mas abaixo listarei alguns.

As pessoas podem ter medo do futuro da economia no que diz respeito a recessões, crises no mercado de crédito, quedas adicionais no juros básico, dentre outros. Isso faz com que eles prefiram títulos de alta qualidade, o que garante uma perda, mas seguros de que apenas perderão uma pequena quantia. 

Outro motivo que pode guiar os investidores a adquirir títulos de dívida com juros negativos é uma crença de que os juros cairão ainda mais, o que apreciaria seus títulos que foram comprados quando a taxa estava negativa, mas maior. 

Outro ponto que justifica a compra de títulos com juros negativos são as expectativas de inflação. Desta forma, se o investidor define que deseja um retorno real de 3% ao ano, e a expectativa de inflação for de 2%, isso faz com que um título deva pagar 5% ao investidor. 

No entanto, em um cenário de expectativa de deflação de 4%, o título deveria pagar -1% e o investidor teria seu objetivo garantido, preservando seu poder de compra. 

Por fim, o investidor também pode acreditar que a moeda do título irá se apreciar mais do que o juros negativo, o que garantiria um lucro a ele na operação. 

Quais os motivos dos juros negativos

Neste campo, surgirão as mais variadas explicações, mas a verdade mesmo é que ninguém sabe ao certo o que causa este fenômeno nos países desenvolvidos. O motivo para a incerteza é óbvio: isso nunca aconteceu na história. 

Ora, se algo nunca aconteceu no passado, como podemos ter a certeza do motivo que o causou agora?

Apesar disso, acredita-se que existam algumas explicações mais plausíveis que outras. 

A primeira e mais óbvia, é que os bancos centrais querem estimular a economia, o que não foi alcançado com os juros próximos a zero. A solução então seria abaixar ainda mais e entrar no campo negativo. 

O objetivo é que as empresas passassem a colocar em prática seus planos de investimentos, uma vez que se o dinheiro ficasse parado no banco, ele teria um rendimento negativo. O mesmo vale para as pessoas, que teriam de consumir para não perder dinheiro. 

Ainda é muito difícil dizer se a medida surtiu efeito, nos forçando a esperar para assistir ao desfecho da história. 

Nesta mesma linha de estímulo à economia, os bancos centrais ao redor do mundo têm um plano em andamento chamado de quantitative easing, que consiste na recompra de títulos por parte dos BCs. Isso tem jogado dinheiro na economia e feito com que o preço dos títulos suba, o que diminui seu rendimento.

Outro motivo que pode ser possível é que com a economia de vários países patinando, investidores simplesmente não estão querendo investir em qualquer tipo de ativo com riscos. Este fato aumenta a procura por ativos livre de risco, jogando os preços para cima e diminuindo o rendimento futuro. 

Além disso, o pessimismo que ronda tais países pode estar afastando os investidores dos ativos reais, com medo de desdobramentos piores no futuro. 

Estariam os bancos centrais reféns?

Um ponto muito importante, que talvez mostre que a tendência é de um mundo inteiro de juros baixos e até negativos, diz respeito às configurações tecnológicas e demográficas. 

Uma verdade econômica é que a tecnologia torna o mundo mais deflacionado. Isso acontece porque a tecnologia consegue substituir diversos postos de trabalho, a um custo muito menor. Se a empresa consegue substituir 10 trabalhadores que ganhariam R$5 mil reais cada, por uma tecnologia que lhe custa apenas R$1 mil por mês para manter, ela acaba de destruir 10 postos de trabalho e tira de circulação R$50 mil reais por mês. 

Se estes trabalhadores perdem seu emprego, eles não conseguem consumir, a demanda diminui e a pressão nos preços é menor também. Ou seja, a empresa está tirando dinheiro da economia, o que está fazendo com que o consumo também diminua.

Outro fator, é que com a tecnologia, diversos produtos e serviços tiveram seus custos de produção diminuídos, uma vez que se um produto precisa de 5 trabalhadores para que ficasse pronto, hoje é necessário apenas um, para acompanhar o funcionamento das máquinas. 

Se os custos diminuem, os preços geralmente acompanham. Com isso, o profit pool de diversos setores não acompanhou a inflação e continuou estagnado, o que tira pressão inflacionária do mercado. 

Com uma taxa de juros alta, as empresas têm mais receio de projetos e investimentos de longo prazo, o que também diminui a atividade e não cria novos empregos. Sendo assim, os trabalhadores que foram demitidos da empresa que adotou um robô, terão muito mais dificuldade em conseguir outro emprego e voltarem a consumir e girar a roda da economia. 

Desta forma, se os BCs decidem por deixar a taxa de juros elevada, a economia não anda. Mas agora, este estímulo deve ser ainda maior, o que pode estar trazendo as taxas de juros para patamares muito próximo a zero, tanto no campo positivo, quanto no campo negativo. 

A demografia também tem um papel importante na explicação dos juros baixos. Devemos considerar que a expectativa de vida de um cidadão hoje é muito maior do que 50 anos atrás. 

Apesar disso, a vida de trabalhador do cidadão geralmente dura o mesmo tempo ou teve uma melhora pequena quando comparada com o passado. Ora, se hoje eu vivo mais tempo, mas trabalho o mesmo tanto do que no passado, isso significa que eu devo guardar mais dinheiro, para que consiga ter uma aposentadoria boa por um longo período de tempo. 

Antes eu precisava guardar dinheiro apenas para aproximadamente 10 anos, já que eu pararia de trabalhar aos 60 e morreria por volta dos 70. Hoje eu irei parar de trabalhar aos 65 anos, mas viverei até os 90. Isso significa que eu devo guardar dinheiro para 25 anos de aposentadoria. 

Se analisarmos o fato, isso mostra que a tendência de consumo pode ser menor por conta disso. 

Agora um questionamento interessante: considerando que devo guardar dinheiro para uma aposentadoria de 25 anos. Sei que o cenário é nebuloso e que não tenho certeza de nada economicamente falando. 

A minha decisão deverá ser de consumir e fazer a economia girar ou guardar dinheiro em casa (já que os títulos do governo pagam juros negativos)? 


Note que não há nada que faça este cidadão consumir, já que o que está em jogo é o bem estar dele durante a aposentadoria. Neste caso, o BC pode trabalhar o juros da forma que for, ela não conseguirá estimular este cidadão a consumir. 

Os juros negativos chegarão ao Brasil?

Pode até ser que sim, mas não deve ser algo que iremos presenciar vivos. Se um país emergente colocar seus juros no campo negativo, isso pode ter duas explicações: o mundo entrou em um colapso produtivo e os juros negativos reinam em todo o mundo ou o Banco Central perdeu a cabeça e deixou de lado sua política cambial. 

Nenhuma das duas alternativas me parece razoável atualmente, portanto acredito que não acontecerá. 

Além disso, o Brasil vem se recuperando de uma crise muito forte e já está com juros nas mínimas históricas, no patamar de 5%. Neste ciclo o juros deve chegar até 4% no máximo, o que ainda é muito longe do negativo. 

Também não existe perigo de deflação, o que talvez forçasse os juros a irem para o patamar negativo. Mesmo o desemprego altíssimo não fez com que houvesse perigo de deflação. 

Mas algo que estamos presenciando de forma inédita no Brasil são os juros reais negativos. Algumas formas de investimento já apresentam essa característica. Isso significa que o investimento até tem um rendimento positivo, portanto o investidor vê sua conta aumentar. 

O que por muitas vezes o investidor não vê, é que na verdade ele está perdendo poder de compra, já que a inflação foi maior do que o rendimento dele. 

Conclusão

Entender os juros negativos ajuda a entender o atual cenário da economia mundial. Como dito, não acredito que o fenômeno chegue ao Brasil no médio-longo prazo. Talvez um dia ele chegue, mas é muito além do que nossos olhos podem ver. 

O assunto também é de difícil resolução e divide inclusive especialistas. O nosso papel de investidores é estarmos informados sobre o fenômeno. Além disso, vale a pena checar nossos investimentos para entendermos se estamos ficando com um poder de compra maior ou menor. 

Governança Corporativa: Conheça os diferentes tipos de listagem

Quando a empresa decide listar suas ações na bolsa de valores, ela tem um conjunto básico de regras definidas por lei que ela deve seguir. Dentro destas regras, existem determinações sobre como a empresa deve ser portar perante ao mercado. 

Tais regras visam diminuir o gap existente entre a empresa e seus acionistas minoritários, que geralmente terão menor acesso a informações da companhia e não têm poder de controle nas decisões tomadas pela empresa. 

Na listagem das ações, a companhia pode optar por seguir apenas as regras mais básicas estabelecidas por lei. Tais regras dizem que ela deve fazer demonstrações financeiras conforme a legislação vigente, além de garantir um tag along de no mínimo 80% para suas ações ordinárias. 

Tag along é o direito de venda conjunta. Ou seja, se a empresa for comprada por uma outra companhia, o comprador deve estender a oferta feita aos controladores também aos minoritários, com um mínimo de 80% do valor oferecido.

A empresa, no entanto, pode optar por listar suas ações nos segmentos diferenciados de governança corporativa. Ao fazer isso, ela concorda em seguir um código de conduta ainda mais rígido. Isso a obriga a divulgar informações e criar comitês que não são obrigatórios por lei, para se tornar mais atraente para os investidores. 

Existem cinco segmentos diferenciados de governança corporativa. São eles:

  • Novo Mercado
  • Nível I
  • Nível II
  • Bovespa Mais
  • Bovespa Mais II

Novo Mercado

O Novo Mercado é o nível mais alto de governança disponível. A empresa que tem suas ações listadas neste segmento se propõem a negociar apenas ações ordinárias (ON). Além disso, as ações da companhia tem o direito de 100% de tag along, o que garante aos minoritários o mesmo preço de venda em uma eventual transação. 

A empresa ainda precisa instituir comitês de auditoria e controles internos. Outro ponto é que a empresa se compromete a manter conselheiros independentes em seu conselho de administração. O número de conselheiros deve ser de no mínimo dois ou 20% do conselho, dos dois o maior. 

Também fica vetado à mesma pessoa o exercício simultâneo dos cargos de presidente do conselho e diretor presidente. A empresa também é obrigada a divulgar todos os seus fatos relevantes, informações sobre proventos e divulgações de resultados tanto em português, quanto em inglês. 

Para finalizar, a empresa deve manter ao menos 25% de suas ações em livre circulação no mercado. 

Estes são apenas alguns exemplos das exigências para se participar do Novo Mercado. A empresa que decide por adotar todas estas políticas, manda uma mensagem para o investidor de que está totalmente alinhada e focada para tornar o ambiente de investimento mais alinhado entre controladores e minoritários. 

Nível I

Neste segmento de governança, as empresas se comprometem a divulgar apenas algumas informações adicionais do que é previsto por lei. 

Existem apenas duas exigências: divulgação de um calendário anual de eventos, além da obrigatoriedade de manter um free float de no mínimo 25% das ações. 

Vale dizer que neste segmento, a empresa pode ter tanto ações ordinárias, quanto ações preferenciais (PN). 

Nível II

Este segmento de listagem é muito parecido com o Novo Mercado, salvo por algumas exceções. 

No caso do Nível II, as empresas têm o direito de manter ações preferenciais e ordinárias. No caso de venda da empresa, o tag along de 100% é concedido para ambas as classes de ações. 

Além disso, as ações preferenciais têm direito a voto em situações críticas, como aprovações de fusões e incorporações. A empresa também é obrigada a manter um free float mínimo de 25% de suas ações, ou de 15%, caso seu volume médio diário de negociações seja superior a R$25 milhões. 

Bovespa Mais

A B3 disponibiliza formas de empresas de menor porte acessarem o mercado de capitais de forma gradual, mas já com níveis elevados de governança corporativa. 

O Bovespa Mais e o Bovespa Mais Nível II são dois segmentos de listagem destinado a empresas que desejam abrir seu capital no futuro, mas que ainda não estão preparadas para o IPO. As companhias que participam deste nível de governança, tem até sete anos para realizarem seu IPO. 

Ações: códigos de negociação e suas categorias

Ao iniciar o investimentos em ações, nos damos de cara com uma nomenclatura específica para a bolsa de valores. Cada empresa negociada na bolsa tem um ou mais código (ticker) de negociação, a depender da estrutura de capital da companhia.

Tipos de ações

Antes de entrar na nomenclatura propriamente dita, devemos saber quais são os tipos de ações. 

Existem dois tipos de ações: as ordinárias e as preferenciais. No caso da primeira, o investidor que as detenha tem o direito a voto em assembleias, fazendo parte propriamente dito do bloco de sócios que podem controlar a empresa. As ações ordinárias também são conhecidas por ON. 

O investidor que tenha ações preferenciais, têm a prioridade na participação nos resultados da empresa. Isso faz com que no pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio, o investidor tenha o direito de receber primeiro esse proventos. As ações preferenciais também são conhecidas por PN.

Além disso, dentro da classe de ações preferenciais, pode existir subdivisões chamadas de Preferenciais A, B, C e D, conhecidas pelas siglas PNA, PNB, PNC e PND. 

Códigos de negociação

Cada empresa tem um ou mais código de negociação. Cada código é formado por quatro letras maiúsculas, que a empresa pode escolher no momento da emissão, seguidos de um número, que indica qual a classe da ação: se ordinária ou preferencial.

As ações ordinárias terminam com o número 3. Assim sendo, as ações ordinárias da Natura, são negociadas sob o código NATU3. 

As ações preferenciais comuns são negociadas com o sufixo 4. Desta forma, as ações preferenciais da Petrobras são negociadas sob o código PETR4. 

Caso a empresa tenha subdivisões em suas ações preferenciais, elas serão negociadas acompanhadas dos sufixos 5, 6, 7 e 8, representando as preferenciais A, B, C e D respectivamente. 

Portanto, as ações preferenciais A da Usiminas são negociadas com o código USIM5, ao passo que as ações preferenciais B do Banrisul são negociadas com o código BRSR6. 

Um outro caso que temos, são as ações da classe Unit. As units são pacotes, onde poderão ser inseridas uma determinada quantidade de ações preferenciais e ordinárias. Essas units são negociadas com o sufixo 11. 

Indo para um exemplo, as units do Banco Inter são negociadas sob o código BIDI11. Dentro deste pacote, existem duas ações preferenciais e uma ação ordinária. Ou seja, dentro de uma BIDI11, existem duas BIDI4 e uma BIDI3. 

Outros códigos de negociação

É importante dizer que para o sufixo 11, também emprega o código de negociação dos ETFs. Desta forma o BOVA11 representa o ETF que segue o Índice Bovespa, assim como o SMLL11 segue o Índice Small Caps. 

Para os recibos de ações estrangeiras negociados na bolsa brasileira, o código de quatro letras é seguido pelos números 33 e 34. Temos, por exemplo, as ações da Biotoscana sendo negociadas pelo código GBIO33. 

Quando uma empresa está fazendo uma oferta subsequente de ações, ela dá aos atuais acionistas o direito de subscrever novas ações. Esses direitos de subscrição são negociadas com os sufixos 1 e 2, representando o direito sob ações ordinárias e preferenciais respectivamente. 

Um direito de subscrição das ações ordinárias da Arezzo são negociados sob o código ARZZ1, enquanto um direito para as ações preferenciais do Itaú Unibanco são negociadas sob o código ITUB2. 

Conclusão

Com o incentivo da B3 para que as empresas se listem no segmento Novo Mercado, hoje em dia é difícil vermos novas emissões que não sejam de ações ordinárias. 

Assim sendo, a maioria das ações são negociadas com o final 3 e a tendência é que no futuro todas as ações passem para a classe de ações ordinárias. 

Insights: É o momento de comprar incorporadoras?

O ano de 2019 marcou um rali para diversas empresas listadas na bolsa de valores. Os motivos são diversos, mas é unanimidade que a melhora no ambiente macro, com mais clareza e compromisso com a agenda liberal, colaborou fortemente para as incríveis altas que tivemos no ano. 

Podemos citar notadamente o setor de proteínas. Além de diversas melhorias operacionais e financeiras, o setor contou com a ajuda da crise de gripe suína africana na China, maior consumidor mundial de proteína de porco e que dizimou os rebanhos da região. 

Outro setor que teve um ótimo rali em 2019 foi o de locadoras de veículos. A Localiza, Movida e Unidas se beneficiaram de um melhor ambiente econômico, o que melhora as reservas, gera uma maior procura para gestão terceirizada de frotas e aumenta a procura para compra de seminovos. 

Por fim, podemos citar as incorporadoras. Estas são beneficiadas diretamente pela queda da taxa de juros, o que torna seus estoques mais baratos e facilita o financiamento, que agora é acessado via taxas mais baixas. 

Além disso, a melhora macro faz com que as pessoas tenham maior propensão à compra de imóveis, que geralmente é o último bem que as famílias irão adquirir durante um ciclo de alta. 

Outro ponto positivo para o setor é a possibilidade de refinanciamento da dívida à taxas de juros menores. Tudo caminha para mais uma explosão do mercado imobiliário nos anos vindouros, o que teoricamente faz com que seja interessante a compra de ações das incorporadoras. 

Mas será mesmo que esta é a história?

Projeto de incorporação

Um projeto imobiliário é planejado sobre o seu valor geral de vendas, conhecido no mercado como VGV. O VGV é o valor monetário total que um determinado empreendimento irá gerar para a empresa após sua conclusão. 

Para construir seu VGV, a incorporadora deve colocar na conta todos os custos do empreendimento, como projeto arquitetônico, construtora, terreno, decoração e despesa com vendas. O excedente do custo seria o lucro que a empresa teria com o empreendimento. 

Até aí tudo bem, parece bem simples. A única coisa que poderia preocupar as companhias é o caso dos terrenos, os quais elas têm, na média, o equivalente a um ano de lançamentos. 

Fator cíclico

O mercado de incorporação pode, por vezes, ser comparado ao de commodities. Existe uma característica cíclica muito grande, onde no momento da baixa de ciclos, as incorporadoras sofrem muito, uma vez que em uma crise econômica, ninguém se propõe a comprar imóveis. 

Os projetos imobiliários demandam muito capital, o que faz com que as empresas tenham que buscar dinheiro no mercado e em alguns casos o fazem emitindo títulos de dívidas. Em um momento de baixa de ciclo, onde as vendas são mínimas e a empresa tem estoque de apartamentos e uma dívida para pagar, diversas dessas companhias decretam falência. 

Outras muitas vendem seus terrenos, para que consigam pagar suas dívidas, o que consegue uma sobrevida à companhia, mas a deixa praticamente zerada em sua linha de estoque de terrenos. 

A magia econômica sempre acontece de uma maneira que nossos olhos não conseguem prever muito bem e uma hora o ciclo vira para cima novamente. Não é uma questão de se, mas sim de quando. 

A empresa até consegue prever que um ciclo de alta está chegando, como é o caso atual, onde devemos surfar uma longa onda de juros baixos, favorecendo o consumo, o que inclui o consumo de imóveis. 

Assim sendo, a empresa poderia recompor seu banco de terrenos que ela perdeu durante a crise, mas para isso ela precisaria de dinheiro. Como essas companhias sabem que certeza não existe, emitir dívidas em momentos de incerteza é algo caro. Uma expansão de capital provavelmente não engataria, a não ser que os investidores conseguissem enxergar uma boa relação risco ganho, o que não é simples no caso das incorporadoras. 

Essa característica dificulta a compra de novos terrenos a fim de se preparar para o próximo ciclo de alta que se aproxima. Assim sendo, as incorporadoras poderão comprar seus terrenos apenas quando o ciclo já for realidade, quando os investidores estarão otimistas em adquirir dívida daquela empresa ou aportar capital em sua operação via emissão de ações. 

Onde mora o problema

Se as empresas no geral têm dificuldade de atravessar a crise e as que conseguem sobreviver a ela, têm em média o equivalente a um ano de lançamentos em seu estoque de terrenos, temos um problema. 

Com o advento do ciclo, a partir do momento em que as empresas começarem a desovar seus estoques finalizados, começará a entrar dinheiro no seu caixa para financiar novos empreendimentos. 

O grande beneficiado de tudo isso será o terreneiro, que terá uma alta demanda por seu espaço. 

A alta demanda faz com que o preço do terreno suba, entrando em um leilão. Vencerá o leilão a empresa que abrir mão de maior parte do seu lucro potencial. Lembra-se do planejamento? A empresa estipula previamente quanto deseja de margem de lucro. Mas se o terreno entra em leilão e ela tem de pagar mais do que planejou, ela terá um lucro menor com aquele projeto. 

Um lucro menor implica em um retorno sobre o patrimônio líquido, ROE, menor. Guarde essa informação, adiante falaremos mais sobre ROE. 

Concorrência

Existe uma diferenciação muito baixa que é característica do setor. Quando vamos adquirir um bem durável como um celular ou mesmo um carro, o processo de pesquisa geralmente é muito grande. É comum que o comprador passe horas lendo análises do produto, uma vez que existe uma diferenciação muito alta nestes setores. 

É normal, portanto, que um indivíduo adquira um celular da Apple em detrimento de um LG, da mesma forma que o contrário é verdadeiro. 

Também é comum que o cliente, no momento em que estiver escolhendo um carro, comunique ao vendedor que ele não irá adquirir de forma alguma um carro da Volkswagen. 

A preferência por uma marca em detrimento de outra é natural e guia o processo de compra destes bens, que em geral irão acompanhar o cliente por alguns anos. A estrutura deste setor faz com que isso aconteça, pois as empresas de eletrônicos e de automóveis têm uma competição ferrenha, que a todo momento está inovando de alguma forma para tentar roubar clientes uma das outras. 

Bom, sabemos que no imóveis são bens duráveis, que provavelmente acompanharão os compradores por décadas. No entanto, essa dinâmica de diferenciação não é verdadeira no setor imobiliário. 

Dificilmente você encontrará uma pessoa que compra um apartamento porque ele é feito pela Eztec ou então pela Cyrela. 

O que guia processo de compra de um imóvel são duas variáveis principais: localização e preço. 

Se a Eztec e a Cyrela, duas empresas focadas no segmento de alta renda, lançarem dois empreendimentos, um do lado do outro, com características parecidas, o cliente irá escolher o que for mais barato. 

Como a marca não conta, em momentos de alta de ciclo, surgem diversos concorrentes, que irão brigar pelos mesmo terrenos e mesmos clientes. Mais concorrentes pelos terrenos faz com que os preços subam ainda mais, diminuindo ainda mais o lucro potencial do projeto. 

Além disso, mais concorrentes fazem com que os preços fiquem mais baixos, uma vez que para não ficarem com estoque finalizados, as empresas terão que caprichar na precificação. Se o preço vier muito alto, o cliente simplesmente comprará o apartamento de outra incorporadora, por praticamente não haver diferenciação entre eles. 

Bom, se a empresa paga mais caro no terreno e vende seus empreendimentos a um preço menor, seu lucro diminui, o que diminui o ROE, novamente ele. 

É tudo uma questão de preço

Explicando o motivo da importância destacada ao ROE neste artigo, um múltiplo muito interessante utilizado na avaliação de incorporadoras é o preço sobre valor patrimonial. 

Este múltiplo mede o quanto o investidor está pagando em relação ao patrimônio que a empresa tem. O valor da empresa em relação ao seu valor patrimonial depende do ROE, ao ponto em que uma empresa que gera ROE alto, retorna valor mais rápido aos seus acionistas. 

Uma vez que tanto o preço, quanto o valor patrimonial são dados, conseguimos fazer uma decomposição da fórmula do indicador para descobrir qual o ROE que o mercado está precificando para a empresa. 

Desta forma, conseguimos concluir que o ROE implícito para as incorporadoras de média e alta renda, hoje está no patamar de ROE que as empresas tiveram na máxima do ciclo de alta passado, por volta de 2012. 

A dinâmica de aumento concorrencial por clientes e terrenos ainda está muito incipiente, o que nos faz acreditar que muita água existe para passar por debaixo desta ponte.

Devo riscar incorporadoras da minha lista?

Se no segmento de alta renda praticamente não existem barreiras a novos entrantes, o que facilita a vida dos novos concorrentes, no segmento de baixa renda isso não é uma verdade. 

As incorporadoras focadas no mercado de baixa renda, como MRV, Tenda e Direcional contam com uma vantagem de escala, o que diminui custos. Além disso, neste segmento a localização geográfica importa muito pouco, o que abre uma dimensão gigantesca de terrenos a serem adquiridos, algo que não é verdade no alta renda, muito concentrado em determinadas regiões de capitais, principalmente a cidade de São Paulo. 

Além disso, o ROE implícito das incorporadoras focadas nas classes mais baixas estão mais condizentes com a média histórica e não estão nas máximas históricas. 

O que pode pesar para esse segmento é uma dinâmica de financiamento ainda um pouco nebulosa, uma vez que os recursos do FGTS que eram usados podem não se mostrar mais disponíveis. 

Conclusão

As incorporadoras de alta renda precisarão encontrar alguma maneira de se desvencilhar da dinâmica setorial para justificarem o ROE que está sendo pago por elas. 

O investidor que quiser exposição ao setor de qualquer forma, pode optar pelo segmento de baixa renda, onde o preço a ser paga parece estar menos exagerado. 

É sempre importante lembrar que além do que foi discorrido aqui, as incorporadoras ainda apresentam seu risco intrínseco de ser um setor de capital intensivo e governança corporativa por vezes duvidosa. 

Por fim, o investidor de ações ainda pode se expor ao setor imobiliário de outras formas. O segmento de propriedades corporativas vem se destacando bastante e tem um perfil mais parecido com os fundos imobiliários. O destaque deste setor vai para a Log Commercial Properties, empresa que nasceu dentro da MRV e que teve sua abertura de capital no final de 2018.

Também é possível acessar o setor de forma indireta através das empresas de siderurgia, que são grandes fornecedoras de matéria prima para a construção civíl. Outro setor que se beneficia do boom imobiliário é o de acabamentos, onde Portobello e Duratex são os principais nomes. 

O que são CRAs

Os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) são títulos de renda fixa emitidos por empresas cuja atividade principal seja ligada ao agronegócio. 

O capital obtido na emissão é utilizado para financiar atividade agrícolas, como compra de máquinas e componentes, financiar o início da safra, o capital de giro da empresa ou pagar dívidas para um melhor perfilamento de crédito.

Como funcionam

Imagine que uma usina de cana-de-açúcar precise de capital para expandir seu parque fabril, buscando uma maior capacidade de produção de açúcar e álcool.

A empresa já realizou diversos estudos e sabe que este é o momento ideal para a expansão. No entanto, sabe que o projeto demanda muito capital, o qual ela não tem no momento. 

É nesta situação que surge o mercado de capitais, para que a empresa consiga captar esse dinheiro. Ela então apresenta este seu plano a investidores, a fim de convencê-los de que este é um bom projeto.

Após convencer os investidores, a empresa emite um título de dívida. Este dá aos compradores o direito de receber o dinheiro emprestado, mais uma quantia de juros, que pode ser pré-definida ou que pode seguir um indexador, como o CDI ou o IPCA. 

Com a venda dos títulos, a empresa recebe a quantidade de capital que precisa para realizar a expansão imediatamente. Ela então executa seu plano e colhe os frutos do investimentos conforme os anos vão passando. 

Em troca, o investidor recebe o dinheiro de volta. O pagamento pode ser feito em parcelas ou de forma única. Essa característica é definida no momento da emissão, sendo que se o investidor receber seu dinheiro em parcela, dizemos que este título tem cupom, geralmente semestral ou anual. No vencimento do título, o investidor recebe a última parcela de juros, mais todo o dinheiro investido no momento em que ele comprou o título.

Mercado secundário

O Brasil vive um momento de taxa básica de juros bem baixa, mas ainda tem perspectiva de cortes adicionais à Taxa Selic. 

Imagine que um investidor compra um título de CRA hoje, com a Selic em 5%. Se a Selic cair ainda mais nos meses vindouros, este título poderá ser vendido com ágio no mercado secundário.

Isso acontece pois todas as emissões de títulos de crédito, tem como base a taxa Selic. Se no momento da emissão a Selic era de 5%, o título deverá pagar 5% mais uma quantia que irá variar de acordo com o perfil de risco da empresa emissora, que iremos chamar de X%. Portanto, a remuneração do título será de 5% + X%. 

Em um cenário em que a taxa básica caia para 4%, imaginamos que o perfil de risco da empresa não irá mudar, então o título pagará 4% + X%. Desta forma, em uma hipotética nova emissão, a empresa pagaria menos para ter o dinheiro do investidor, o que faz com que o título que ela emitiu no passado valha mais.

Portanto, o investidor que comprou a primeira emissão da empresa terá um título que vale mais do que os títulos de novas emissões, abrindo assim uma oportunidade para venda do título no mercado secundário. 

Vale dizer que para o investidor que pretende levar o título até o vencimento, recebendo os juros do mesmo, as mudanças na taxa básica de juros e a dinâmica no mercado secundário pouco importam, pois ele irá receber o que foi acordado no momento da compra. 

Vantagens

A grande vantagem dos CRAs é que eles são isentos de IR e IOF para a pessoa física. Em um momento de taxas de juros comprimidas, a não dedução dos impostos significa ainda mais para o rendimento da carteira do investidor. 

Olhando pela ótica da criação de uma carteira otimizada para os mais variados cenários econômicos, os CRAs se mostram uma boa oportunidade de diversificação, sendo uma ótima opção para a exposição ao setor agrícola. 

Um outro ponto que não pode ser ignorado, é que como já falado, o país se encontra em um cenário de taxa Selic nas mínimas históricas. Isso comprime os rendimentos de todos os títulos de renda fixa no geral, o que faz com que o investidor tenha que garimpar muito mais para que consiga achar taxas que valham a pena em relação ao custo de oportunidade do mercado de renda variável. 

Os títulos de crédito privado oferecem as melhores taxas na categoria de renda fixa. Uma forma interessante de minimizar os riscos deste tipo de operação é olhar as garantias que a empresa emissora está dando para que consiga a captação. As garantias poderão ser executadas pela justiça no caso de não pagamento por parte da empresa, o que faz com que a propensão a pagar a dívida por parte da empresa seja maior. 

Conclusão

Os CRAs se mostram uma ótima opção para composição de carteira no segmento de renda fixa para o atual cenário econômico. Isso não quer dizer, no entanto, que todas as emissões são de qualidade. É sempre interessante contar com o auxílio de um profissional para entender se aquela operação faz sentido para o seu portfólio e se o risco da operação condiz com as taxas que estão sendo pagas. 

Assista ao nosso vídeo educativo e conheça mais sobre CRAs!

Insights: encontrando negócios vencedores

 análise qualitativa no mercado de ações é tão importante quanto a análise dos números. Esses critérios subjetivos são importantes quando estamos fazendo nossas contas nas planilhas para saber se determinada empresa é um bom investimento ou não.

Warren Buffett cunhou as vantagens competitivas das empresas com o termo moat, que eram os fossos de água ao redor dos castelos medievais. Tais fossos funcionavam como fortalezas, que impediam que os castelos sofressem ataques dos inimigos. 

Podemos utilizar o termo para a análise de empresas, buscando entender quais sãos os moats daquela companhia. Uma empresa com barreiras a novos entrantes tem mais facilidade para competir e geralmente tem a capacidade de expulsar concorrentes ao longo do tempo, facilitando sua vida nos negócios.

Vale dizer que com o advento da tecnologia estamos vendo algumas vantagens competitivas caírem, o que me faz imaginar que determinadas vantagens passarão a existir apenas por um determinado período de tempo.

No momento da análise da empresa buscamos principalmente por algumas barreiras a novos entrantes e de que forma a empresa se encontra em relação a essas barreiras. São elas: reconhecimento da marca, switching costs (custos de troca), economia de escala e alta necessidade de capital.

Reconhecimento da marca

Essa vantagem competitiva se mostra um moat, visto que é muito difícil competir com uma companhia que tem uma marca extremamente estabelecida. 

Uma marca conhecida dá a empresa algumas vantagens. São elas: 

1) Desfrutar de certa estabilidade nas vendas;

2) Entrar em novos mercados de forma mais fácil, tornando a operação menos arriscada e custosa, uma vez que os gastos com marketing poderão ser menores neste novo mercado;

3) Poder de aumentar os preços de forma mais ágil, com o objetivo de:
3.1) se proteger de custos de produção maiores;

3.2) subir suas margens e melhorar sua rentabilidade, gerando mais lucro aos acionistas.

O exemplo no mercado brasileiro que temos é a Ambev, que tem um market share gigantesco no país, com produtos que são extremamente reconhecidos em todo o território nacional. 

Switching costs

Essa barreira a novos entrantes é muito evidente em empresas que prestam serviços de soluções empresariais. Altos switching costs seria uma dificuldade, seja por custo monetário, seja por custo de oportunidade, de se fazer a troca de um produto ou serviço. 

Imagine uma empresa que tem um sistema de gestão empresarial integrado entre todas as suas unidades, onde todos os funcionários têm acesso e já são treinados para realizar suas tarefas do dia a dia naquele sistema. 

Essa empresa dificilmente optará por trocar esse sistema, uma vez que os custos de treinamento, a dificuldade e demora de implementação, provavelmente criariam problemas para a administração da empresa resolver que não seriam necessários caso a troca não ocorresse. 

Isso explica o motivo pelo qual as empresas querem produzir bens e serviços que tornem seus clientes cada vez mais atrelados à sua marca. 

No Brasil temos poucos exemplos de empresas que criaram altos switching costs. O desenvolvimento dessa vantagem vai muito além de criar um sistema de gestão sem erros. Geralmente este sistema de gestão deve vir integrado de um ótimo banco de dados e a opção de plugar neste sistema diversas ferramentas que são oferecidas por outras empresas. 

Essa compatibilidade por vezes pode ser difícil de ser realizada, o que já diminui um pouco o custo de troca, uma vez que se um sistema começar a limitar a atividade da empresa, ela fará a troca, mesmo que o trabalho seja um pouco maior por algum tempo. 

Como exemplo de empresa que oferece sistemas e garantiu altos custos de trocas, temos a Oracle, que sempre ofereceu bancos de dados de qualidade indiscutível. Isso garantiu à empresa o poder de remarcar preços sempre que quisesse, uma vez que seus clientes dificilmente a trocariam por um provedor de dados de qualidade inferior. Além disso, os riscos de problemas seriam maiores, bem como os custos de se trocar um banco de dados da Oracle não valeria a pena. 

O preço dessa relação com os clientes parece ter chegado para a Oracle, uma vez que a Amazon vem fazendo um serviço formidável com o AWS. Diversas empresas já adotaram a solução que já representa uma fatia importante do faturamento da gigante americana.  

Para sair um pouco do relacionamento B2B, a Apple tem um custo de troca relativamente alto, uma vez que o cliente que adere a todos os produtos e soluções da empresa, dificilmente fará a troca de volta para Android, Windows e Spotify. 

Economia de escala

Essa barreira diz a respeito da economia de custos que os negócios podem atingir depois de certa escala, o que faz com que compense para a empresa realizar a atividade. 

Essa característica é encontrada na maioria dos grandes negócios. A questão é que ela só se torna extremamente importante em um negócio de margens baixas, como o setor de varejo. 

Por ter margens mais baixas, cada unidade a mais que a empresa vende, confere um incremento de margem para o resultado. Assim sendo, ela tem de produzir e vender uma quantidade bem alta de produtos, para que os custos fixos possam ir se diluindo. 

Empresas de varejo geralmente têm margens mais baixas por conta da baixa diferenciação de produtos, alta competitividade e altos custos. Os custos mais altos são um reflexo da competitividade, uma vez que se uma empresa decidir não comprar de determinado fornecedor, este fornecedor ainda terá a oportunidade de vender seus bens a outro varejista. 

Além disso, em alguns modelos de negócios, existem os custos de estrutura com lojas físicas, o que torna as margens ainda menores. 

Desta forma, a empresa que consegue vender mais, consegue diluir mais os custos fixos e vai aumentando a margem de contribuição de cada produto. Isso garante à empresa um aumento de margem, melhora da rentabilidade e consequentemente, mais lucro aos seus acionistas. 

O maior exemplo de economia de escala no mercado brasileiro é a Raia Drogasil, que opera com uma margem líquida bem baixa, ao redor dos 4% e só o consegue fazer por conta de sua rede de quase 2 mil farmácias no país. A empresa tem aproveitado sua superioridade para investir pesado no aumento da rede.

A empresa planeja abrir 240 novas farmácias no ano de 2019 e mais 240 no ano de 2020. Essa capilaridade garante à empresa a vantagem de utilizar suas farmácias como mini centros de distribuição, o que diminui o tempo de entrega nas farmácias e domicílios. Além disso, garante o abastecimento à localidades mais afastadas, a um custo mais barato. 

A economia de escala da RD ainda dá para a empresa uma importante margem de negociação com distribuidores de medicamentos. Uma vez que os remédios têm seus preços regulados pela Anvisa no Brasil, a compra com descontos por parte da companhia é um divisor de águas entre o lucro e o prejuízo. 

Alta necessidade de capital

Um negócio que exige alta quantidade inicial de capital pode desmotivar diversos possíveis competidores. Isso acontece pelos riscos envolvidos na operação. Uma empresa pode não gerar caixa suficiente em seus primeiros anos, o que pode colocar em xeque a vida da companhia.

Assim sendo, empresas que demandam alta necessidade de capital inicial e também de capital de giro, têm uma vantagem competitiva natural, que é difícil de bater. 

No Brasil vemos isso principalmente nas indústrias de siderurgia, exploração de petróleo e locadoras de veículos. 

Imagine uma empresa que deseja atuar na perfuração de poços de petróleo. Os equipamentos para iniciar a exploração são extremamente altos e os custos de se perfurar um poço idem. Após a perfuração, são exigidos estudos para se descobrir a viabilidade daquele projeto. 

A empresa sempre faz estudos prévios, mas a confirmação da viabilidade só vem após a perfuração do poço. Pode-se descobrir que determinada localidade não tem viabilidade de exploração, com os lifting costs muito altos, o que faz com que a empresa não tenha competitividade no mercado. Como commoditie, o preço do petróleo é dado via bolsa de valores, o que faz com que a lucratividade empresarial esteja na minimização de custos. 

Se determinado poço se mostra inviável, a empresa precisa iniciar todo o processo em um outro projeto. Note que até agora, a empresa não teve praticamente nenhuma geração de caixa e só queimou suas reservas. A necessidade de se encontrar um poço viável só vai aumentando e a captação de recursos fica cada vez mais difícil, uma vez que os credores vão perdendo a confiança na operacionalidade da empresa.

Por conta disso vemos tão poucas empresas atuando no ramo de exploração e produção de petróleo. Os altos custos faz com que poucos players tenham a capacidade de superar momentos difíceis. 

No Brasil, temos como exemplo de empresa que se beneficia da alta demanda de capital de giro, as companhias de locação de veículos. Localiza, Unidas e Movida têm a receita de como atuar no setor. 

Neste negócio, a troca de frota acontece aproximadamente a cada 18 meses, o que demanda alto capital de giro para renovação da frota. É impossível sobreviver neste ambiente de competição com uma frota mais envelhecida. 

As empresas até conseguem levantar caixa na venda dos seminovos, o que faz com que este segmento seja extremamente relevante para o sucesso da companhia. Apesar disso, o custo inicial existirá e a demanda por capital é alta no setor. 

Conclusão

Escolher empresas com base nestes quesitos apresentados acima, faz com que o investimento seja mais certeiro.

Isto não quer dizer, no entanto, que estes critérios apenas, farão com que a empresa ou a ação performe bem. Existem diversos outros fatores a serem olhados antes da compra da ação. 

As companhias vivem em ambientes de negócios complexos e avaliar as de maior importância é um processo chave para obter sucesso no mercado de renda variável.