Dê uma ajuda à sua previdência

Atualmente, os fundos de previdência privada são uma importante parte do portfólio das pessoas físicas no Brasil. Essa é uma ótima notícia, visto que olhada da ótica tributária, essa é uma das, senão a melhor classe de investimentos disponível hoje no mercado. 

A depender do sistema de tributação escolhido, o imposto de renda a ser pago pode chegar a apenas 10% do lucro obtido com o investimento. 

Os bancos comerciais são grandes responsáveis pelo estoque de previdência dos brasileiros, que hoje está de perto de R$1 trilhão. 

Herança maldita

São longínquos os tempos de taxas de juros astronômicas no Brasil. E sinceramente, espero que elas nunca mais voltem. Os juros nas alturas são um bom termômetro de que no horizonte o que está por vir no cenário político e econômico não é muito bom. 

Hoje, com uma Selic em 3%, esse fator é minimizado. Mas como uma espécie de cobertor curto, onde se cobre a cabeça e os pés ficam descobertos, essa queda de juros nos mostra outro problema. 

Herdado de uma regulamentação previdenciária precária, os veículos de previdência antigamente tinham diversas amarras em relação a onde o gestor poderia alocar o capital dos seus cotistas. 

Para ilustrar um pouco o fato, os veículos de previdência podiam ter no máximo 49% do seu capital em ações, com diversas restrições em relação ao emissor, por exemplo. 

Isso não era um problema em um Brasil de juros de 14% ao ano, onde na renda fixa era possível ter um retorno mensal de 1%, sem que fosse necessário incorrer em riscos para isso. É aquela famosa jabuticaba: só no Brasil mesmo…

Se pegarmos um dado de 2019, mais de 80% da previdência do brasileiro está alocada em renda fixa. O gerente do banco, que além de atender você, tem mais três mil clientes. Ele não só te indicará uma previdência, pois também deve bater metas de seguros, cartão de crédito, contas abertas e do famoso título de capitalização. Ele certamente não irá se preocupar em te mostrar que os tempos agora são outros e que uma realocação da sua carteira de investimentos é necessária. 

Pensamento crítico

Eu que não sou gerente de banco nem nada, tenho algum tempo livre para te incitar a fazer um exercício mental comigo. 

Os investimentos de previdência devem ser enxergados para o longo prazo. Não adianta investir em um veículo como este se não estiver pensando lá na frente. As suas características tributárias fazem com que quanto maior o tempo de investimentos, maior será o benefício. E isso virá na forma de juros compostos, logo, de maneira exponencial. 

Isso se dá pela ausência de come-cotas a cada seis meses, que ao longo do tempo, vai ganhando valor e vai rendendo juros. Já que o Leão não come 15% do seu lucro a cada semestre, esse lucro vai crescendo cada vez mais com a mágica da composição de retornos ao longo do tempo. 

Passada a questão do longo prazo, chegamos então a um ponto interessante. Se tratando de investimentos de longo prazo, os ativos de riscos tendem a gerar o maior retorno, visto que se afastando dos ruídos de mercado intradiário, o que temos é o desenvolvimento de empresas ao longo do tempo, que vão ganhando cada vez mais valor. 

Se pegarmos os retornos das classes de ativos, quanto mais arriscado o investimento, maior o retorno potencial. Veja que não estou falando que o retorno vai de fato se mostrar maior, mas ele tem mais potencial para ser maior. 

Assim sendo, faria mais sentido eu assumir mais riscos em minha parcela de previdência, visto que o potencial de retornos seriam maiores.

Olhando desta forma, já não faz sentido ter 80% do estoque de previdência em fundos de renda fixa. Os tempos agora são outros e para se obter um retorno digno, será preciso assumir riscos. Assim como em qualquer lugar do mundo. 

O grande segredo

E qual a forma que temos então para maximizar meus retornos? No longo prazo, não queremos estar na ponta perdedora. 

Na verdade, o grande segredo é que não há segredo nenhum. Deve-se ter um portfólio diversificado, com renda fixa sim, mas também com fundos multimercados e fundos de ações. 

Para se escolher as gestoras, temos hoje a maior parte delas com um veículo dedicado a previdência. E o trabalho das gestoras independentes é apenas esse, fazer gestão de investimentos de terceiros. 

Não há a possibilidade de se fazer outra coisa para ganhar dinheiro. É gestão e acabou. Temos hoje Brasil Capital, Constellation e Hix como algumas gestoras de ações com veículo exclusivo de previdência, já com a nova regulamentação, com a possibilidade de se investir até 100% em ações. 

Conclusão

Dito tudo isso, você pode até acreditar que um portfólio diversificado não vai fazer lá tanto diferença no seu bolso. 

Eu poderia me alongar com os mais diversos motivos para dizer que na verdade faz sim diferença estar alocado em bons veículos, com a devida diversificação. 

Mas uma das coisas que aprendi ao longo da vida é que existem coisas que são teóricas e existem coisas que são visuais, palpáveis, práticas. 

Alguém um dia sintetizou isso em uma frase: uma imagem vale mais que mil palavras. 

Então me despeço hoje com uma imagem para lhe fazer pensar. Aqui podemos ver que de fato, 1% a mais de rentabilidade que seja, faz uma diferença absurda nos seus resultados de longo prazo. 

Isso te permitiria se aposentar cinco anos mais cedo ou então colher ao final dos 25 anos, um rendimento 26% maior.

Por mares nunca dantes navegados

Não sei como se sairiam nesta crise os navegantes portugueses. Por mais heroicos e cheios de coragem que fossem, como brilhantemente narrou Luís Vaz de Camões, acredito que não muito bem. 

Quando Ray Dalio, gestor do maior hedge fund do mundo perde um dinheiro absurdo, justamente por não saber como reagir ao momento, pode apostar que os resultados não serão muito animadores para os meros mortais que estão abaixo dele. 

Se você, assim como eu, perdeu dinheiro nesta crise – ou ao menos viu suas posições sendo marcadas para baixo – paciência, não dá para ganhar sempre. 

A questão é que hoje temos de tomar uma nova decisão permeada por riscos, incertezas e diversos caminhos a tomar. Cada um com seus prós e contras. Cada escolha uma renúncia, como diria o grande Chorão, anos atrás.

Mesmo que a decisão seja fazer nada, essa é uma decisão. Incorra em suas consequências. 

Dado o atual cenário mundial, com lockdown na maior parte do mundo, quais decisões devemos tomar com nossos investimentos a partir de agora?

Os impactos do Covid-19

Certamente teremos o novo Coronavírus impactando a economia mundial em 2020. Isso está dado, não tem o que fazer. A tarefa de gestores, estrategistas e analistas é de encontrar o quanto e por quanto tempo teremos as economias mundiais afetadas. 

A China parece voltar à normalidade depois de ser o epicentro do vírus. Ao governos chinês e demais países vizinhos, uma salva de palmas pelo exemplo de como se deve fazer um shutdown. A postura exemplar fez com que o vírus fosse dizimado por lá. 

O Coronavírus, no entanto, se espalhou rapidamente pelo resto do mundo, assolando de maneira mais séria a Itália. Espanha, Estados Unidos e Brasil estão entre os países que foram fortemente afetados também. 

A situação na Itália demorou a ser levada a sério e quando a população e o governo se tocaram, a situação já era bem crítica. O número de vítimas fatais já ultrapassou o que foi visto na China e faltam leitos de UTI para o país. 

Com todo esse fluxo negativo de notícias, bolsas ao redor do mundo desabaram, o dólar disparou contra outras moedas e os países ligaram um grande sinal de alerta. 

Ao que parece, a situação na Itália foi considerada o cenário base pelos agentes de mercado, que parecem precificar o pior cenário possível. Parece que o mercado não levou em consideração alguns critérios que facilitam a propagação do vírus na terra dos genoveses. 

As políticas públicas na Itália são precárias e o governo, novamente, demorou a tomar medidas necessárias para tratar o caso. O clima na Europa ainda é de bastante frio e um dos fatores mais importantes, a Itália é o segundo país do mundo em número de idosos em relação ao percentual total de habitantes. 

Infelizmente o vírus tem consequências muito sérias em pessoas de mais idade, que já se encontram com o sistema imunológico baixo e em diversos casos, já têm outras doenças que os acompanham. 

Outros países, como Coréia do Sul e Singapura foram rápidos ao agir, ordenando à população que permanecesse em casa e o shutdown comprovadamente é a forma mais eficaz de conter o avanço do Covid-19. 

Ao que parece, a vida segue normal nos países orientais, onde o vírus foi levado a sério desde o início. 

Ações coordenadas

Os bancos centrais ao redor do mundo foram rápidos ao agir. O FED agiu logo no início de março, cortando de forma extraordinária 0,5% de sua taxa de juros. Duas semanas depois, em outra reunião extraordinária, anunciaram o corte dos juros para 0%. 

Além disso, o BC americano reiniciou o quantitative easing, que é um afrouxamento monetário, com a recompra de títulos para injetar mais liquidez nos sistema. 

Além da política monetária, os EUA já se dispuseram a realizar diversos incentivos fiscais para prevenir possíveis quebras nas empresas e uma eventual crise de crédito, que poderia levar os bancos americanos à falência. 

Outros bancos centrais, como Inglaterra e Europeu anunciaram cortes de juros e incentivos fiscais, também buscando salvar a economia do continente de uma recessão mais forte. 

No Brasil, na última quarta-feira tivemos mais um corte na taxa Selic, com o Copom trazendo o juros básicos brasileiro para o patamar de 3,75%. Além disso, o governo brasileiro já anunciou incentivos fiscais e deve tomar novas medidas com o passar dos dias. 

O Brasil conta com um trunfo nesta crise por sua característica contra-cíclica em relação ao resto mundo. Aqui estamos no início do ciclo de recuperação de nossa pior recessão republicana. Existe um hiato do produto muito grande, a economia está estagnada, o desemprego está alto e a inflação está ancorada. 

Com o panorama mostrado acima, o BC não tem motivos para subir a Selic no curto prazo. Para ajudar a conter o dólar, que escalou desde meados de fevereiro, nosso Banco Central conseguiu um contrato de swaps cambiais com o FED. Além disso, contamos com imensas reservas cambiais que o governo pode leiloar caso ache necessário conter o câmbio. 

Teremos ainda uma demanda reprimida na economia brasileira em 2020. As pessoas irão consumir menos por um a três trimestres, o que irá afetar de alguma forma os lucros e margens das empresas.

As projeções de crescimento de PIB no Brasil foram revisadas para baixo, com previsões inclusive de PIB negativo. Mais sobre isso à frente. 

O que fazer agora?

É provável que muitos de vocês tenham visto grandes perdas em seus investimentos. Se tratando de investimentos, todo dia temos de tomar alguma decisão. Vender, manter ou comprar? 

Os ativos de riscos, quase que em sua totalidade, apresentam algum tipo de desvalorização. O que está precificado é uma perda de fundamento gigantesca e as revisões de PIB jogaram ainda mais água no chopp dos investidores. 

Devo lembrar, no entanto, que temos um grupo de empresas listadas que são as melhores do seu setor e definitivamente são as melhores empresas do Brasil. Este tipo de negócio é sólido, tem muita liquidez e em geral tem capacidade de atravessar tempos de crise. 

Isso é uma inferência empírica, ao passo que no quadriênio de 2015 a 2018 não tivemos crescimento de PIB. Ainda assim, essas empresas conseguiram entregar crescimento de lucro, ganho de participação no mercado e saíram da crise com uma posição ainda mais dominante frente aos concorrentes. 

O PIB estagnado afasta novos concorrentes. Se o cenário econômico não está satisfatório, as pessoas ficarão com mais ressalvas sobre abrir um novo negócio. O mesmo vale para possíveis concorrentes externos, que ao olhar para o Brasil, já encontram diversas dificuldades no ambiente de negócios. 

Se o cenário não estiver perfeito, eles também ficarão mais reticentes em abrir uma unidade no Brasil. Com isso, o profit pool do setor continua sendo dividido entre as empresas que já estão no mercado. 

A vantagem vai para as empresas com maior porte, caixa e linhas de crédito robustas, que possibilita à companhia atravessar a crise sem precisar cortar produção ou quadro de funcionários. 

Além disso, se a empresa tem uma situação financeira mais favorável, ela consegue conceder descontos mais agressivos, a ponto de enfraquecer os menores concorrentes, o que pode possibilitar uma quebra no concorrente ou até uma aquisição estratégica. 

Com isso, quando a crise for embora e os lucros do setor se normalizarem, as empresas terão uma fatia maior do mercado e um lucro ainda maior do que tinha antes da crise. 

Note, no entanto, que toda essa dinâmica demora algum tempo. Os ciclos empresariais demoram meses para acontecerem e é preciso paciência. 

As empresas estão muito descontadas desde seu último pico. Por mais que possa parecer que não, a crise causada pelo Covid-19, passa. Uma hora ela vai embora. 

Ao investir em renda variável, devemos ter um ambiente temporal de longo prazo. É provável que daqui a três anos vejamos a atual crise apenas como um pequeno lapso nos lucros corporativos. 

Eu não sei onde essa queda irá parar, qual será o real impacto do coronavírus nas economias ao redor do mundo e se estamos próximos de encontrar uma vacina. A questão é que uma hora essa crise passa. 

Se tratando de ativos de riscos, a oportunidade está dada. Se você não tem nada em renda variável, pode ser um ótimo momento para colocar um pé nisso. Para os que têm alguma coisa e viram essa parcela da carteira derreter, pode ser o momento de vender um pouco do que não caiu e recompor a posição perdida nas quedas. 

Sempre com a cabeça no longo prazo. O atual movimento de queda ainda pode se estender. Pode ser interessante ir comprando aos poucos. Como disse Luiz Parreiras em um call com investidores hoje (20/3) pela manhã, se trata de uma oportunidade como 2008 e quando subir, será muito rápido. 

A questão é que existe um fator psicológico. O investidor que quer acertar o fundo do movimento, pode ver o mercado disparar em um dia e esperar voltar, pois viu esse comportamento em momentos anteriores. Se a disparada se estende por uma semana, ele nunca mais compra, pois acredita que ficou caro. 

Não estamos tentando pegar o fundo do movimento. O objetivo aqui é comprar bons ativos, que gerem bons retornos daqui a cinco anos. Tudo e só isso. 

Alocação tática

Além de abrir oportunidade de alocação no Brasil, a recente queda nos mercados mundiais também gerou uma oportunidade nos EUA. 

Por muito tempo, gostamos da alocação em ações exclusivamente no Brasil, visto que as características econômicas aqui apresentadas eram mais interessantes do que no restante do mundo. O Brasil contava com uma história de crescimento muito bacana, início de ciclo e preços das ações ainda comprimidos. 

O S&P 500 trabalhou por 10 anos consecutivos em alta. A recente queda deixou o principal índice da bolsa americana em preços de recessão. Sabemos do poder monetário e fiscal dos EUA, que foi rápido ao tomar medidas para salvar sua economia. 

Donald Trump está em ano de eleição e pode apostar que ele fará de tudo para manter crescimento na economia americana para que consiga se reeleger. 

Quando de uma recuperação global na economia, o mercado acionário americano deve ser o primeiro a reagir, uma vez que existem menos fatores de riscos nos EUA. 

Faz sentido, portanto, uma alocação em bolsa americana para o momento, além de manter também uma alocação em bolsa brasileira. 

Proteções

Com a atual crise, cresceu também a busca por proteções. Vale lembrar que uma carteira bem diversificada entre as classes de ativos já é um ótima proteção. 

Em relação estritamente a ouro, dólar e opções, não faz tanto sentido neste momento. O dólar pode até continuar subindo, mas é interessante esperar mais um pouco para ter esse ativo em carteira. 

O ouro teve quedas recentes na busca dos investidores globais por liquidez. As opções estão caríssimas com a volatilidade nos ativos de risco nas alturas. 

Acredito ser necessário uma mescla desses ativos na sua carteira. No entanto, como não considero a quebra de fundamentos da tese de investimentos no Brasil como um cenário minimamente provável, acredito ser melhor esperar a poeira baixar para entrar nesses ativos. 

Conclusão

O mercado com seu caráter de maníaco depressivo por vezes nos faz acreditar que as coisas não irão melhorar e que o fim do mundo está próximo. Mas acredite, isso passa. 

Também não vale a pena sofrer pelas perdas passadas. Elas são doloridas mas são cicatrizes necessárias para nosso contínuo desenvolvimento como investidores. Ray Dalio perdeu dinheiro nesta crise por não saber o que fazer, segundo palavras dele mesmo. 

Se ajuda ainda mais, a turma do Verde também tomou uma ré em seus principais veículos. Se tem alguém que sabe investir e ganhar dinheiro é a dupla Luis Stulhberger e Luiz Parreiras da Verde. 

As perdas são normais, não conseguiremos acertar sempre e, principalmente, não iremos conseguir prever quando teremos o próximo cisne negro. Afinal, por definição, eles são imprevisíveis. 

Portugal não ouviu Luis de Camões quando o mesmo alertou em Os Lusíadas sobre um sociedade definhada. Desta vez existe uma dupla Luís/Luiz que nos alerta que a crise passa e que 2008 serve de escola. Cabe a você ouvir ou não.

O impacto do coronavírus nos seus investimentos

Após um longo feriado de carnaval no Brasil, o mercado financeiro retomou suas atividades no vermelho, com o Ibovespa fechando o pregão nesta quarta-feira de cinzas com queda de 7%. 

Este é o reflexo de dois dias fechados para negociação, enquanto o mundo morria de preocupação com o coronavírus se alastrando por países de ásia e europa. O que começou como uma preocupação apenas chinesa, se tornou um problema mundial em meados de fevereiro e agora o mercado definitivamente entrou em pânico com a doença se alastrando mundialmente. 

O investidor que vê o mercado caindo deste jeito pode acreditar que houve alguma quebra de fundamento e que a tese de investimento agora é outra. Mas calma lá, não é assim que a banda toca…

Impacto na economia

Certamente o coronavírus deverá trazer impactos para a economia mundial. Este fato, que antes era um dúvida, passou a ser praticamente uma certeza. A dúvida agora é estimar qual será o real impacto e se o crescimento mundial está ameaçado durante todo o ano de 2020 ou se isso trará impactos apenas no primeiro trimestre. 

A verdade é que a epidemia já causou estragos na economia chinesa. O tráfego em estações de metrô, aeroportos e shoppings despencou a um patamar inimaginável. A economia chinesa sofrerá bastante ao longo do próximos meses para se recuperar deste tombo. 

Com a China não é uma ilha, apenas o fato de a epidemia ter causado estragos na economia chinesa já seria um ponto de preocupação para o restante do mundo, uma vez que as relações comerciais diminuem em momentos assim. Se a produção chinesa paralisa, o resto do mundo é afetado.

A questão neste momento é que países como Coréia do Sul, Irã e Itália também registraram diversos casos da gripe ao longo dos últimos dias, o que espalhou medo pelo mercado. 

A primeira leitura no surgimento da doença, no final do mês de janeiro, é que o mercado em geral se recupera rápido destes tipos de surtos. E a primeira onda foi justamente isso, uma queda com rápida recuperação dos mercados. 

O principal motivo para isso foi a crença de que as autoridades chinesas se moveriam rapidamente para conter a doença e eliminá-la sem que a mesma pudesse se tornar uma pandemia. 

As coisas caminharam relativamente calmas ao longo de fevereiro, com casos esporádicos ao redor do mundo, mas nada que causasse muito medo. 

O panorama, no entanto, se provou demasiadamente diferente do imaginado. Enquanto o brasileiro pulava carnaval, o mundo se chocava com milhares de casos sendo registrados também fora das fronteiras chinesas. 

O vírus se mostrou forte o suficiente para passar a alarmar também os países ocidentais e quando isso acontece, o mercado para de ignorar e isso causou o grande sell-off que enxergamos nos últimos dias. 

Com tudo isso, diversos voos foram cancelados, hotéis foram isolados e fechados para novas reservas e mais algumas cidades ao redor do mundo passarão a funcionar em modo de emergência, até que seja possível o retorno às atividades normalmente. 

Veja que estou sim considerando que o coronavírus irá impactar a economia global. 

Se um vírus para os países do sudeste asiático e da Europa, ele influencia todo o comércio global. Quem está dizendo isso é o FMI, que já reduziu a projeção de crescimento mundial em 2020 de 3,3% para 3,2%. 

Agora, é importante ressaltar também que as autoridades não ficarão paradas esperando que uma solução apareça de repente. Diversos países já anunciaram estímulos econômicos, seja através de quedas de juros ou injeção direta de dinheiro na economia.

Essas medidas buscam salvar o ano de muitos países ainda no primeiro trimestre. 

Enxergamos recentemente o título público de 10 anos dos EUA caindo de 1,47% para 1,35%, dado o aumento de demanda que houve. Ora, se existe uma crise mundial, o mais racional é realmente partir para o lugar mais seguro do mundo economicamente falando, que é os EUA. 

O reflexo do coronavírus

Antes do coronavírus surgir no final do mês de janeiro, existiam algumas narrativas críveis para as situações econômicas de diversos países no mundo. 

Uma dessas narrativas diziam que os EUA haviam encerrado seu corte de juros e o foco passaria a ser somente as eleições presidenciais que ocorrem em novembro. A Europa por sua vez, seguia em sua lenta tentativa de tirar sua economia do buraco. 

Depois dos fatos que aconteceram, a narrativa passou a ser bem diferente, com pacotes de incentivos sendo oferecidos por governos europeus de forma mais contundente. 

Além disso, já existe gente importante projetando dois cortes adicionais na taxa de juros americana pelo FED. 

Faz sentido. Donald Trump não pode de forma alguma ver sua economia declinando tão próximo à sua reeleição. Não serão poupados esforços de sua parte para que o crescimento continue. Não pode ser descartado, além deste incentivo monetário através dos cortes de juros, também um incentivo fiscal da economia americana. 

Se no futuro próximo tivermos dois cortes na taxa de juros pelo FED, haverá um fluxo de dinheiro saindo dos EUA e indo para a Europa, onde existirão taxas mais atrativas em títulos de dívida privada. Esse fluxo maior de capital para a Europa tem o potencial de reacender sua economia, sem que isso prejudique os EUA, que tem um saldo gigantesco de rentistas internacionais que não o interessa muito. 

Some a isso os estímulos já prometidos pelos governantes europeus, podemos ter uma boa saída para a economia ocidental em 2020. 

Não é motivo de comemorar, não dá para dizer que vai acontecer, mas também não é o fim do mundo. As coisas podem se desenrolar para um lado positivo. 

E o Brasil

Assim como a China não é uma ilha, a característica também se estende ao Brasil. O impacto nas relações comerciais devem sim afetar, mesmo que minimamente, terras tupiniquins. 

Os principais afetados deverão ser as empresas aéreas e as exportadoras, como commodities e frigoríficos. 

Como o coronavírus se tornou um problema global, perto de se tornar uma pandemia, as viagens devem diminuir bastante nas famílias brasileiras. A crise mais séria na China também diminui a atividade industrial, forte importadora de commodities, em especial as mineradoras e siderúrgicas. 

Ademais, mesmo que tenhamos tido hoje (26), a confirmação do primeiro caso de paciente infectado no Brasil, as coisas tendem a não mudar muito, por enquanto. 

O panorama ainda segue tranquilo nas américas e os EUA estão passando relativamente intactos por esta crise. Inclusive, se realmente se materializar as quedas de juros nos EUA, teremos um cenário extremamente positivo para o Brasil, que verá seu diferencial de juros aumentar novamente em relação aos Estados Unidos. 

A tese estrutural permanece intacta por aqui. Ainda gostamos bastante de bolsa e juro longo, que paga um excedente de IPCA bem atrativo em títulos do governo e corporativos. 

O crescimento de lucro corporativo no Brasil pelos próximos dois anos tem potencial para ser algo próximo de 20%, enquanto nossa média é de crescimento de 10% ao ano e no restante do mundo esta medida fica na banda entre 7% e 9%. 

Ainda acreditamos fortemente na recuperação do grau de investimentos até o final de 2021. O selo dado pelas agências de riscos é game changers na relação que o país terá com o investidor estrangeiro e o desenvolvimento do mercado de capital como via de financiamento privado. 

Uma queda de 7% na bolsa assusta, mas não machuca. Já era o esperado. O melhor a se fazer no momento é aguardar. A crise do coronavírus não atrapalha em muita coisa a visão de longo prazo. 

E acredite, há de se acreditar em olhar apenas o longo prazo. Ganhar dinheiro em prazos dilatados já não é a coisa mais fácil do mundo. Fazer isso no curto prazo então, é quase impossível e se reserva apenas a uma porcentagem ínfima da população. 

Conclusão

Dito tudo isso, é importante acalmar os nervos e não apertar o botão de venda no home broker ou mesmo pedir para que seu broker faça isso por você. 

O momento é de ter calma e enxergar acima do curto prazo. Se houver algum novo fato que mude o call estrutural, estaremos aqui para informá-lo. 

Por ser um crise aguda e estarmos no meio da tempestade, também não é a hora de aproveitar a queda para comprar mais. É um momento de mais cautela, de saber que a bolsa ainda pode esticar mais para baixo, antes de voltar a subir. 

Por fim, gostaria de retomar aqui um trecho de uma publicação do dia 19 de dezembro: 

“Olha, é muito otimismo, inclusive para mim. É até provável que de tudo que falei acima, algumas coisas não se mostrem verdadeiras, mas nada que atrapalhe a tese. 

Mas se algo inesperado ocorrer a ponto de anular a tese de investimentos, é necessário que estejamos preparados. Por conta disso sugiro uma alocação de 5% em ativos que nos protegem em um cenário que as coisas saiam dos trilhos.”

Na ocasião, eu falava sobre a importância de se ter 5% da carteira em proteções como ouro, dólar e opções de venda. Os três serviriam igualmente, de modo que o melhor seria ter um pouco de cada. 

Na época ainda não havíamos tido crise entre EUA e Irã ou Coronavírus. E não estou vindo aqui falar para me gabar de ter acertado tais eventos. Até porque seria impossível acertar isso, visto que foram cisnes negros. Os especialistas em conflitos geopolíticos e os melhores cientistas do mundo não teriam acertado também. 

Cisnes negros, por definição, são impossíveis de se prever. E eu não consigo te dizer se teremos outro até o final de 2020. Mas e se tivermos? 

Quem seguiu a risca e alocou 5% do portfólio em dólar, ouro e puts de Ibovespa, certamente sofreu menos em um dia como hoje. 

E quem garante que não teremos outros dias como hoje ao longo do ano? As proteções são muito importantes para um portfólio equilibrado. Mas não adianta pegar o telefone amanhã pela manhã e pedir para que seu assessor ou private banker compre proteções para você. 

A oportunidade, dessa vez já passou. O ouro e o dólar tiveram altas gigantescas ao longo da últimas semanas, a ponto de não mais justificar alocação nestes ativos no curtíssimo prazo. 

Mas pode acreditar que novos problemas globais acontecerão. Quando menos esperarmos, acordaremos com alguma manchete bombástica que irá nos fazer assistir a uma queda vertiginosa da bolsa. Da próxima vez, você também estará preparado?

Insights: porque você também deveria investir em ações

Existe uma sina no universo do mercado financeiro de que, pessoas com perfil conservador não deveriam investir em renda variável.

Esta regra parece ser marcada na pedra, visto que dificilmente encontramos pessoas que se dizem conservadoras com algum percentual da carteira em ações.

Não que eu concorde com tal afirmação, inclusive acho justamente o contrário. Mas vivemos no Brasil e sabe, tudo bem não ter renda variável na carteira quando se consegue uma rentabilidade de 15% ao ano em renda fixa. Com isso, dobramos nosso capital a cada cinco anos, nada mal!

Quis o destino, no entanto, que os ventos daqui passassem a soprar em outra direção. Em 2017 tivemos o início de um Brasil reformista, que busca cortar gastos públicos e acabar com os privilégios dos grupos mais favorecidos, como uma taxa de juros de longo prazo a custo de banana para as grandes corporações, enquanto o pequeno empresariado tinha de captar recursos a uma taxa de 20% ao ano no mercado.

As reformas que já foram postas em prática, juntamente à uma mudança de mindset nos principais órgãos econômicos do país, como Ministério da Economia, Banco Central e BNDES, possibilitaram que a Taxa Selic caísse ao seu patamar mais baixo da história, aos 4,25% ao ano.

E acredite, eu também não sou do time do “a renda fixa morreu”. Se eu acho que um portfólio inteligente e bem montado deve ter renda fixa? Sem dúvidas. Se eu acho que essa parcela tem de cair, no entanto? Sem sombra de dúvidas.

O Brasil rentista acabou! E pode apostar que ele se foi para talvez nunca mais voltar. A taxa de juros básica deve voltar a subir em 2021, mas nada que a leve muito acima da faixa de 6% ao ano. 

Se antes era comum investir unicamente em títulos de renda fixa com rentabilidades acima de 15% ao ano, atualmente isso não deve passar dos 4,5% bruto ao ano, e descontada a inflação você terá aproximadamente 1,25%aa de juro real. 

A questão é que, mesmo com este cenário atual, o “investidor conservador” continua com aversão à renda variável. O principal culpado nesta situação é o próprio investidor, que por diversos motivos, ainda não percebeu que aquele 1% ao mês na renda fixa se foi juntamente com a dona Dilma.

Com isso, ele simplesmente se fecha para qualquer apetite a risco, não se preocupando nem em entender como funciona minimamente a renda variável. 

Ora, se você trabalhou para juntar seu capital, o seu desejo será que você tenha uma aposentadoria tranquila, aproveitando as férias eternas e merecidas que têm, após se dedicar anos ao trabalho. No entanto, se você tiver um rendimento real pouco acima de 1% ao ano, receio em te dizer que na verdade, você vai apenas sobreviver. 

Um adendo, a poupança não entra nem em consideração neste momento. Com um juros real negativo, se você tem o dinheiro na poupança é melhor que você nunca deixe de trabalhar, visto que terá menos dinheiro quando mais precisar. 

Também não estou dizendo que todos devem ter o mesmo percentual de renda variável na carteira. Mas se você tem menos de 30 anos e nenhuma posição arrojada em sua carteira, é melhor abrir os olhos!

É comum encontrar os mesmos argumentos para essa aversão à renda variável: “é muito arriscado, não é para mim”. 

Na verdade, o que realmente incomoda é a marcação de preço instantânea. Para o investidor acostumado apenas com renda fixa, é catastrófico acordar com suas posições tendo uma queda diária de 4%.

Risco

A Teoria Moderna das Finanças diz que: quanto mais riscos você correr, maior será seu retorno potencial. Isso teoricamente explicaria um rendimento potencial baixo da renda fixa, onde você sabe que receberá, ao final do investimento, uma quantia maior do que investiu. 

Nas renda variável você abdica de saber ex-ante se receberá um valor maior ou menor do que o investimento, para que possa obter ganhos potenciais infinitos.

O risco, em geral, tem o papel assumido pela volatilidade que é o quanto determinado ativo financeiro oscila ao longo do tempo. As ações possuem marcação de preços em tempo real, e qualquer notícia sobre o ambiente macro ou micro afeta o preço desses papéis listados. 

A marcação à mercado dos títulos de renda fixa é bem mais ineficiente, visto que não existe um mercado organizado de bolsa para cotações em tempo real. Assim sendo, o investidor só saberá quanto o título dele está valendo, se ele quiser vendê-lo antes do prazo. 

Como em geral esses títulos são carregados até o vencimento, as oscilações de preço não afetam o investidor, visto que ele não observa a variação diária do papel, a não ser que precise liquidar antes do vencimento. 

É comum vermos uma empresa de capital aberto emitir títulos de dívida (como exemplo as debêntures). Os investidores conservadores adoram, visto que essas emissões chegam com taxas de retorno bem interessantes. 

Como exemplo atual, uma empresa do setor elétrico está emitindo um título (debênture incentivada) que pagará IPCA + 4,25% ao longo dos próximos 10 anos, isento de imposto de renda. Considerando o atual cenário de juros, é uma barganha, inclusive irei participar desta oferta, visto que, um retorno real de 4,25% ao ano não se encontra em qualquer esquina.

Fico ainda mais confiante quando olho para a empresa em si, que tem uma saúde financeira muito boa, e além disso é uma das empresas mais eficientes no seu setor, tem um modelo de negócios que garante muita economia no processo de exploração e produção de energia. Enfim, uma empresa excelente, que gera muito caixa e vai conseguir pagar essa dívida que está emitindo com um alto grau de certeza.

Agora, eu tenho noção de que receberei somente a taxa indicativa, nem um centavo a mais.

E se eu olhar para esta mesma empresa, sob a ótica do investimento em ações? Relembrando, ela é uma das melhores empresas do setor de energia, altamente eficiente e com um modelo de negócios bem montado. Sua receita é protegida por contratos de longo prazo com o governo federal e que até onde eu sei, ainda não encontraram nenhuma alternativa à energia elétrica.

Desde o início de janeiro de 2019, ela já apresentou uma alta superior a 175%. É exatamente a mesma empresa, mas são investimentos de classes diferentes. Não estou dizendo que a partir de agora, ela ainda subirá os mesmos 175%. 

Mas o preço das ações, no longo prazo, acompanham o lucro das empresas que estão por trás daqueles tickers que piscam o dia todo no home broker. 

Em qual situação eu não receberei o meu dinheiro de volta no título de renda fixa? Bom, se ao longo destes 10 anos, a empresa quebrar, eu perco todo o meu dinheiro. 

E nas ações desta mesma empresa? Ora, se a empresa quebrar ao longo do tempo em que tenho dinheiro nela, eu perderei todo o meu capital. 

Veja que simplificadamente, o risco é, na verdade, o mesmo. Este é um modelo simplificado, visto que no processo de falência da empresa, o primeiro a receber o valor residual é o governo, depois os credores e só depois os acionistas. 

Mas acredite, isso na verdade pouco importa, pois em geral não sobrará nada pra contar  história. E tudo isso acontece da mesma forma em um títulos de renda fixa ou em uma ação. Se trata da mesma empresa, ela tem o mesmo modelo de negócio, atua no mesmo setor. É tudo a mesma coisa. 

Mas e as oscilações diárias nas ações?

Existe uma frase no mercado financeiro que diz: “somente os vendedores de ações deveriam se preocupar com as quedas de curto prazo”. 

Eu, por exemplo, sou consumidor de cerveja. Se acontecer algo que faça o preço da cerveja caia, eu aproveito para comprar mais, não para vender as que já tenho guardadas em casa. 

Eu sei que a tendência é que o preço se normalize dentro de algumas semanas ou meses, então eu aproveito para comprar mais enquanto o preço está baixo. 

Com as ações deveria ser exatamente assim. Desde que investimos em cias de alto grau de qualidade, em geral não há o que temer com as quedas diárias. Elas, na verdade, são ótimas oportunidades para comprar mais de um ativo que você sabe que é bom, a um preço mais barato. 

Não existe sucesso de curto prazo. Tenha em sua carteira ações de extrema qualidade, com lucros recorrentes. Seu retorno virá dos dividendos no médio prazo e da apreciação das ações no longo prazo. 

E é só no longo prazo mesmo. Empresas obedecem a ciclos empresariais, que são longos e demorados. Não dá para cobrar nada no curto prazo. Ademais, no curto prazo o caminhar do preço das ações se assemelha a um caminhar de um bêbado, não sendo possível prever para onde o preço vai. 

No longo prazo, no entanto, o preço das ações acompanha o lucro das empresas. Então se temos empresas fortes, geradoras de lucro, não devemos ter problemas. 

Se você não tem tempo para olhar uma a uma cada ação que você deveria ter, entregue a gestão para um profissional através de um fundo de ações. 


E não precisa ser 100% da sua carteira. Comece com pouco, vá ganhando mais confiança conforme o tempo for passando e aumentando cada vez mais. 

Se você não olha todos os dias o rendimento do seu título de renda fixa, por que tem que olhar o da sua carteira de ações? As coisas não acontecem da noite para o dia. Elas demandam tempo. 

O que não podemos mais esperar é uma alocação de carteira ineficiente com nada ou quase nada em renda variável. O mercado mudou e se você não mudar junto, ficará para trás, e talvez daqui um tempo seja tarde demais para aceitar essa mudança.

Como a Cogna pretende revolucionar a educação básica

A Cogna passou recentemente por uma reestruturação organizacional onde passou a dividir a empresa em quatro linhas de frente. 

Conhecida anteriormente como Kroton, a companhia surgiu em Belo Horizonte como um cursinho pré-vestibular e evoluiu para ser o maior player de educação no país. O foco deixou de ser educação básica e passou a ser educação superior, onde a empresa adquiriu concorrentes estratégicos e utilizou de sua excelência operacional para ser a empresa mais relevante do setor na bolsa. 

No final de 2019 houve a dita reorganização, onde a Kroton passou a se chamar Cogna, abrigando sob o seu guarda chuva quatro diferentes linhas de negócios. O nome Kroton foi mantido para a operação B2C de ensino superior. 

A plataforma B2B de ensino superior passou a se chamar Platos. Enquanto isso, a empresa se utilizou da aquisição da Somos Educação para criar linhas específicas que cuidariam da educação básica, onde a Saber cuidará do B2C, linha com escolas próprias, e a Vasta cuidará do B2B, que fornecerá sistemas para escolas. 

Esta última empresa dentro da Cogna é o foco de hoje. Particularmente, é a unidade que mais tem potencial para fazer com que o grupo volte a valer o que um dia valeu na bolsa. 

O ensino básico privado no Brasil

O panorama de escolas privadas no Brasil é bem parecido na média. Em geral, elas são empresas de menor porte e com administração familiar. Diferentemente de outros setores da economia, a escola K12, que cobre desde o jardim de infância até o último ano do ensino médio, parou na história. 

O gestor da escola, por exemplo, tem que conversar com inúmeros integrantes de sua cadeia, como fornecedores de livros didáticos, uniformes, professores, pais de alunos etc. Com tudo isso, lhe sobra pouco tempo para se preocupar com atividades extremamente importantes, como a qualidade do ensino, o desenvolvimento dos alunos e os aspectos financeiros da empresa. 

Outro fator é que em um mundo cada vez mais digitalizado e gerador de dados, incomoda o fato de que eles não sejam utilizados para maximizar o desempenho dos alunos. As escolas ainda são pouquíssimo digitalizadas e quase não geram dados que podem virar informações sobre os alunos. 

Além disso, ainda é muito incipiente o movimento das escolas para abranger serviços secundários na educação básica, como os conceitos de soft skills, tão comentados no novo ambiente da geração dos millennials. Não existe, por exemplo, a cobertura por parte das escolas de atividades de ensino específicas em períodos extra, como reforço escolar, ensino de tecnologia, ciências ou engenharia. 

Há de se notar também o fato de que houve nos últimos 20 anos uma mudança nos hábitos de uma família tradicional, que passou de uma mãe que por vezes não trabalhava e tinha tempo para levar e buscar os filhos na escola, bem como levá-los às atividades no período da tarde, como judô, violão e natação. 

Hoje em dia ambos os pais tendem a passar o dia todo no trabalho, o que dificulta seu deslocamento para atender às demandas dos filhos. 

Junte todos os problemas apresentados ao fato de que o Brasil ainda é um país onde um curso superior é diferencial e garante ao graduado uma média salarial substancialmente maior do que do indivíduo sem um diploma de curso superior. 

A diferença é ainda mais latente quando são considerados os cursos superiores em universidades públicas de ponta, onde os vestibulares são extremamente concorridos e fortunas são gastas pelos pais em cursinhos pré-vestibular. 

Isso tudo mostra que o sistema de ensino básico privado necessita de um reboot. Existe um mercado endereçável gigante neste segmento. Os cinco maiores players de educação básica no país representam menos de 10% desse mercado. 

Um dado mostra que 8 em cada 10 famílias consideram que educação de qualidade é o melhor investimento que os pais podem fazer por seus filhos. A mesma pesquisa ainda mostra que as famílias tendem a preferir escolas que ofereçam habilidade do século 21 em sua grade de ensino. 

Público alvo

A educação básica privada, nos moldes do que a Vasta busca oferecer, é destinada às famílias de classe A e B. Existe um argumento que fala que o investimento em ensino básico não faz tanto sentido, uma vez que as famílias estão tendo cada vez menos filhos. 

A afirmação acima é parcialmente verdadeira, uma vez que as famílias estão tendo menos filhos realmente. No entanto, a diminuição de filhos per capita vem sendo observada nas classes D e E, ao passo que as classes A e B continuam tendo filhos da mesma forma. 

No geral, as pessoas não querem mais ter muitos filhos, mas ainda assim querem ter ao menos um ou dois. Como o público à que se destina o sistema oferecido pela Vasta é focado nas classes A e B, não deve existir um problema de demanda. 

Um sinal disso, é que segundo o Censo Escolar do Inep, o número de estudantes de ensino básico caiu no Brasil, mas o número de estudantes do ensino básico privado aumentou 10% nos últimos oito anos. 

O argumento se torna uma falácia ao vermos perspectivas do IBGE para a evolução da população brasileira nas classes econômicas. Claro que se tratam de previsões, pode ser que o IBGE esteja errado por um, dois, cinco anos. Mas a tendência da economia é sempre de crescimento, então imaginamos que seja um cenário plausível. 

Enquanto hoje em dia as classes alvo da Vasta representam aproximadamente 40% da população, em 10 anos ela representará quase 60%.

A Vasta Educação

A Vasta surge com o propósito de ser uma plataforma one stop provider para as escolas K12 privadas. Os serviços da Vasta podem ser divididos em dois grandes grupos: onde o primeiro tem o objetivo de ajudar a escola a prover uma educação de qualidade, e o segundo grupo busca auxiliar a escola a ser melhor gerida. 

A Vasta basicamente fornece um sistema para que a escola possa se tornar um negócio rentável, sustentável e com boas perspectivas de médio/longo prazo. 

Ao abordar um cliente, a Vasta oferece ao parceiro duas opções metodológicas: sistema de ensino ou livro didático. No primeiro, a Vasta instala no parceiro uma de suas bandeiras de ensino, que conta com marcas extremamente renomadas, como Anglo, Pitágoras e pH. 

Neste caso, todo o sistema passa a pertencer a esta bandeira, que conta com suas próprias características pedagógicas, programas de ensino e qualificação de docentes. A empresa trabalha com diversas bandeiras justamente para que possa abranger os mais diferentes perfis de escola, com diferentes tickets médios e opcionais. 

Ao adotar um sistema de ensino, a escola também ganha acesso à plataforma de tecnologia aplicada à educação da Vasta, que possibilita a digitalização do ensino, através de tarefas de casa via computador, tablet ou celular, por exemplo. 

Esta funcionalidade automaticamente passa a gerar diversos dados para o professor, que consegue entender se determinado assunto foi um entrave no entendimento dos alunos e mostra que ele deve reforçar aquele conteúdo na próxima aula. 

A plataforma integrada também pode fazer relatórios de cada aluno individualmente, que podem ser acessados pelos pais e pela coordenação da escola, que saberá onde focar com cada aluno, tornando mais eficiente o processo de aulas de reforço em períodos extras para quem realmente precisa. 

Ao mesmo tempo, a escola também recebe acesso à um portal de capacitação de docentes, que são submetidos à programas de educação continuada, para que estejam sempre atentos às novidades de suas respectivas áreas, bem como tendências de ensino que vão sendo desenvolvidas com o passar dos anos. 

O segundo caso é geralmente encontrado em escolas premium, onde não há um embandeiramento do colégio, em geral por questões como tradição histórica da escola. Este modelo é observado em cidades maiores. 

No sistema de livro didático, a Vasta oferece à escola parceira uma personificação do serviço, onde ela monta um sistema pedagógico de acordo com as necessidades do colégio. 

Para isso, a Vasta é detentora das quatro maiores editoras de livros didáticos do país. A plataforma tecnológica também está presente neste modelo, bem com a plataforma de capacitação de professores. 

Vale dizer que para ambos os casos, a plataforma de ensino dos alunos oferece diversas opções. Se um aluno estiver com dificuldade em resolver determinado exercício, é oferecido à ele a oportunidade de assistir uma vídeo aula sobre o assunto. Caso a dificuldade ainda persista, ele poderá acionar um tutor da Vasta, que estará disponível de segunda a sábado das 7h às 23h. Aos domingos existe um suporte das 7h às 13h.

Todos esse ecossistema potencializa a capacidade da escola em prover as mais diferentes oportunidades de ensino aos seus alunos. A qualidade é comprovada com o dado que em mais de 500 cidades, escolas com algum sistema de ensino da Vasta estiveram no Top 3 do município no ENEM. 

A Vasta ainda oferece em seu primeiro bloco de auxílio, atividades ligadas à línguas estrangeiras e à modalidade STEM, acrônimo do inglês que significa Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Todas essas características são ofertadas ou estão em desenvolvimento para auxiliar a escola a prover a melhor solução de ensino possível às famílias e seus filhos. 

O segundo bloco busca ajudar a escola a ser melhor gerida e a gerar mais valor aos seus donos. 

Atualmente a empresa oferece apenas um serviço neste bloco, mas promete entregar diversas outras funcionalidades ao longo do ano. 

A solução oferecida na plataforma de gestão é a de e-commerce. As escolas têm um problema fiscal em comprar livros didáticos para revender aos alunos, uma vez que o cadastro estadual delas é de provedor de serviços. 

A Vasta oferece, através da Livro Fácil, o maior marketplace de ensino básico do país, com mais de 167 mil itens em seu catálogo. Repentinamente a escola se livrou de problemas de organização, logística e fiscal, através de um serviço oferecido pelas Vasta. 

A empresa ainda está desenvolvendo soluções para as frentes de matrícula online, marketplace de bolsas de estudos, marketing digital e CRM, ERP Financeiro e Acadêmico. 

Estas soluções ajudarão as escolas a atrair cada vez mais alunos, oferecê-los uma educação de excelência, não apenas segundo o currículo básico exigido pelo MEC, mas os preparando para os desafios da vida adulta e consequentemente conseguirão um maior grau de retenção de sua base de clientes. 

Modelo de negócios

As escolas que decidem por operar com serviços oferecidos pela Vasta, assinam contratos que vão de três a sete anos, o que garante uma grande previsibilidade de receita pela empresa. 

Hoje, mais de 4 mil escolas são clientes de algum serviço oferecido pela companhia, dentre um universo possível de mais de 17 mil. 

Os serviços oferecidos são customizáveis, então existe uma grande oportunidade de cross-sell, visto que as escolas que são parceiras atualmente, nem sempre adquirem todos os pacotes possíveis. Se o atual cliente está satisfeito com o serviço (conforme os níveis de NPS da empresa), ele tem mais chance de adquirir outras ofertas da Vasta. 

A Cogna acertou em cheio em dividir suas unidades de negócio, pois permite que o mercado precifique de maneira mais adequada a holding como um todo. 

Ao olharmos para a Vasta, temos uma empresa de plataform as a service (paas), que funciona em um modelo de assinaturas, onde o cliente pode montar seu pacote e paga mensalmente para a companhia de acordo com as funcionalidades escolhidas. Estamos diante de um negócio ainda com receitas recorrentes e previsíveis. 

O modelo é todo baseado em tecnologia, como foi possível observar através das novidades apresentadas aqui e serão ainda mais latentes com o passar do tempo e o lançamento de novas features

A Vasta é uma unidade asset light, visto que demanda pouco investimento em capital físico pois ela não tem o custo de criar e administrar uma escola do zero, com o pagamento de salários de professores, etc. 

Ela fornece soluções com viés tecnológico, fazendo com que os investimentos tenham que ser em profissionais da área e em grandes servidores. O custo disso tudo é muito menor e a escalabilidade é alta. 

Desenvolvido o sistema, ele precisa apenas de manutenção e de melhorias contínuas. Mas pouco importa se haverá uma ou mil escolas conectadas a esse sistema. A receita cresce muito mais rápido do que o custo. 

Essas características de asset light e alta escalabilidade, conferem ao negócio um grande potencial de crescimento.

Conclusão

A Vasta Educação é apenas uma das linhas de negócios da Cogna. A empresa também promete entregar um mindset mais voltado à tecnologia em suas outras áreas de negócios, mas certamente a Vasta se mostrou algo sem precedentes, em um mercado altamente fragmentado e com muitas oportunidades de melhorias. São características que gosto muito em uma empresa. 

Ainda precisa ser observado se os desenrolares serão como a empresa espera, mas me parece uma ótima oportunidade de longo prazo.  

Entendendo os títulos de crédito privado

Em um ambiente de taxas de juros baixas, os títulos de renda fixa de emissão corporativa ganham um papel importante dentro desta classe de investimentos. Isso é um fato que é observado em países desenvolvidos, onde o histórico de juros baixos é bem mais longo, possibilitando a observação empírica desta tendência. 

Grandes corporações brasileiras historicamente buscaram a emissão de dívida no exterior, visto que as taxas cobradas lá fora eram mais baixas do que em terras tupiniquins. 

A história mudou e diversas empresas estão quitando suas dívidas lá fora e realizando novas emissões no Brasil. Isso é um bom sinal, principalmente para o investidor de renda fixa, que passa a ter um leque de opções muito maior para investir. 

Os principais títulos de crédito privado que existem e chegam ao investidor são as debêntures, CRIs e CRAs. 

Remuneração

O primeiro ponto a se entender nos títulos de crédito privado é a forma de remuneração. 

Ao se investir em títulos soberanos, como o tesouro direto, o investidor mitiga todos os riscos possíveis e aplica na classe de ativos mais segura disponível, que só corre o risco soberano. 

Em pouquíssimas ocasiões na história vimos um país dar calote na dívida interna, então teoricamente o investidor está colocando seu dinheiro em um ativo livre de risco, que oferece uma determinada remuneração, dados os devidos prazos de vencimentos e demais características. 

Em um título de crédito privado, o emissor não é o governo e sim uma empresa não financeira. Essa empresa corre diversos riscos que a união não está submetida, como o risco de crédito (lembre-se que assumimos que o governo não dará calote), risco de mercado, como o surgimento de um novo concorrente para a empresa que emitiu a dívida, dizimando-a e fazendo-a perder diversos clientes; dentre outros riscos. 

Por conta destes riscos que a empresa corre e o governo não, o investidor exige uma remuneração maior do que se fosse emprestar dinheiro ao governo. Isso é algo lógico, visto que os riscos de uma empresa falir é maior do que o risco de o governo falir, por exemplo. 

Esta remuneração adicional que o investidor exige para adquirir um título de dívida privada é chamado de spread de crédito. Você já pode ter ouvido que o spread de crédito está se fechando ou abrindo. 

Se o spread está fechando, isso quer dizer que o mercado está exigindo uma taxa menor e se o spread está abrindo, isso significa que as novas emissões estão vindo com uma taxa maior. 

Vale dizer que “o mercado está aceitando” e “o investidor está exigindo” são sinônimos, visto que toda emissão nada mais é um acordo entre empresa e investidor de que eles concordam com as taxas que estão sendo emitidas. 

Quanto mais arriscada o mercado observar ser essa operação de emissão de dívida, maior será a taxa exigida. Grandes empresas têm seu status de boas pagadores, visto que dificilmente são ameaçadas. Neste caso, chamamos os títulos de High Grade, visto que eles são títulos que são avaliados como grau de investimento pelas agências de risco. 

Os títulos high grade apresentam uma remuneração pouco acima do que é observado no tesouro direto. 

Ao passo que as operações vão ficando mais arriscadas, com um prazo de duração maior, com emissores menores, que são mais suscetíveis aos riscos de mercado, a remuneração vai aumentando. 

As operações com maior risco são classificadas como High Yield, justamente por apresentarem uma remuneração maior. 

Um conceito que é extremamente importante de ser entendido, é que todos os títulos de renda fixa tem um valor de face que em geral é de R$1.000,00. Isso é uma convenção e é utilizado mundialmente. 

Valor de face é o que o investidor receberá no final do investimento. Assim sendo, se o investidor decidir comprar 25 unidades de um determinado título, ele irá receber ao final do seu período de investimento a quantia de R$25.000,00. 

A remuneração é dada a partir de quanto o investidor irá pagar neste título para comprá-lo. Imagine que a Localiza está emitindo uma dívida com prazo de vencimento de um ano, com juros de 10%. 

Se você decidir investir neste título, você estará comprando o mesmo por R$909,09, que aplicados 10%, resultará em um valor de R$1.000,00. 

Portanto, quanto maior o preço a ser pago no título, menor será a remuneração, visto que o montante final será de R$1.000,00. Ao passo que se o preço cai, o rendimento aumenta. 

Esta dinâmica é extremamente importante por conta das operações no mercado secundário. 

Crise em títulos de renda fixa?

No segundo semestre de 2019 observamos um fenômeno novo no mercado. Diversos fundos de investimento de renda fixa em crédito privado apresentavam cotas negativas diariamente. 

Vale dizer que a CVM obriga que os fundos divulguem diariamente as suas cotas, que nada mais seria do que a soma de todos os seus ativos segundo o preço que o mercado está dando. 

Esse fenômeno aconteceu pois muitos fundos detentores destes títulos precisavam vendê-los a qualquer custo, jogando o preço para baixo, no conhecido mecanismo de oferta e demanda. Se a oferta é muito alta, o preço cai. 

Os fundos precisavam se desfazer desses títulos, pois seus cotistas estavam pedindo resgate. Para pagar estes resgates, os gestores venderam estes papéis a qualquer custo para que pudessem devolver o dinheiro. 

Como vimos, quando o preço cai, a remuneração aumenta. Pudemos observar diversos títulos de bons emissores pagando taxas relativamente altas, justamente porque alguém precisou se desfazer deles. 

O motivo de resgates massivos é que com as quedas de juros, diversos investidores passaram a não mais ficar satisfeitos apenas com a renda fixa, que passou a oferecer rendimentos muito baixos comparados ao passado. 

Isso fez com que diversos deles solicitassem resgates. Como os ativos investidos por esses fundos não são tão líquidos, eles tiveram de se desfazer a qualquer custo, jogando os preços para baixo. 

Como o movimento foi muito grande, as cotas passaram a ficar negativas, pois o preço estava abaixo dos preços do dia anterior. O que aconteceu foi uma reação em cadeia que machucou bastante vários fundos de crédito privado. 

Isso causou um segundo movimento, que foi uma onda de cotistas que não estavam necessariamente insatisfeitos com o retorno desses fundos, mas ficaram tão assustados com um fundo de renda fixa rendendo negativo, que decidiram por sacar também, colocando ainda mais pressão nas gestoras para pagar resgates. 

Esse segundo movimento também derrubou muita gente e bilhões de reais foram pagos em resgates. 

Oportunidade

Essa onda de títulos de crédito privado no mercado fez com que seus preços caíssem, fazendo então que a taxa aumentasse. 

Gestoras que tinham dinheiro em caixa puderam aproveitar ótimas oportunidades de se beneficiar com isso e comprar das outras gestoras desesperadas, títulos high grade com um retorno substancialmente acima do normal atualmente. 

É por isso que ouvimos no noticiário nos últimos meses que o spread de crédito se abriu. Como a taxa aumentou, o spread entre título de crédito e o tesouro direto também aumentou. 

Olhando pelo lado técnico, fazia sentido a abertura do spread apenas se a condição geral de bons pagadores dos emissores de títulos tivesse piorado nos últimos seis meses. O que aconteceu, na verdade, foi o contrário. 

Com o país se recuperando da crise e a economia voltando a esquentar, a saúde financeira das empresas melhorou, o que corrobora com um fechamento do spread de crédito e não uma abertura.

Conclusão

É sempre importante também ter atenção ao critério de remuneração do título. Hoje em dia não é mais interessante adquirir títulos que sejam em percentual do CDI. É sempre melhor ter preferência em CDI+ ou IPCA+.

Insights: a você, saúde!

O ano de 2019 foi o momento em que as operadoras de saúde presentes na bolsa de valores caíram na graça dos investidores. Tanto NotreDame Intermédica, quanto Hapvida vivenciaram altas de mais de 100% no ano. 

Depois de ver substancial valorização, o investidor pode se perguntar se ele já perdeu a chance de entrar ou ainda pode investir nessas empresas. 

O modelo de negócios

As duas operadoras são caracterizadas por operarem de forma verticalizada, o que garante a maior vantagem competitiva dela, frente aos outros operadores de saúde. 

Quando dizemos que uma empresa é verticalizada, isso quer dizer que ela detém ao menos dois processos em sua cadeia de produção ou de serviços. 

Uma empresa que produz e vende roupas ao consumidor final é verticalizada, visto que ela recebe a matéria prima, confecciona as peças, tem o trabalho de logística para que os produtos cheguem às suas lojas e as vende aos seus consumidores, elaborando os devidos planos de estratégia de marketing e colocação, por exemplo. 

Hapvida e Intermédica são verticalizadas pois vendem aos seus clientes planos de saúde onde o paciente pode passar por consultas, realizar exames de laboratório e fazer cirurgias através de operações próprias. 

Isso quer dizer que o operador não tem de pagar à clínica ou ao laboratório por um exame pré-operatório, o que reduz o custo e da maior poder à empresa. Além disso, a empresa pode criar protocolos internos que funcionem de maneira ágil, diminuindo o tempo de espera do paciente entre exames e internação. 

Também é possível criar rotinas de exames preventivos, a fim de diminuir o índice de sinistralidade, que é o quanto a empresa gasta com solicitações dos pacientes, comparado ao faturamento com planos de saúde. 

A inflação médica é um grande problema e as operadoras verticalizadas excluem este ponto, uma vez que boa parte de seus médicos são contratados e não conveniados. Médicos e clínicas ganham por complexidade do exame e quantidade de visitas do paciente, enquanto que os mesmos contam com dados limitados sobre o cliente. 

Os hospitais também ganham mais quando os clientes ficam por mais tempo internado, além de verem suas receitas aumentarem quando os procedimentos aos quais os pacientes são submetidos são mais complexos. 

Como o operador consegue ter um maior controle sobre os custos de atendimento, essas empresas podem oferecer planos mais baratos, que ofereçam soluções completas para seus beneficiários. Além disso, a margem de lucro é maior, visto que a maior parte dos custos estão dentro de casa. 

Saúde no Brasil

O Brasil é o terceiro país que mais gasta no mundo com saúde, atrás apenas de EUA e China. Apesar disso, apenas 24% da população brasileira têm acesso à planos de saúde. 

O primeiro ponto que quero destacar, é que o sistema de saúde pública em nosso país é precário e está fadado ao fracasso. O governo já aprovou diversos planos de contenção de gastos e simplesmente não conseguirá arcar com toda a demanda de saúde que ocorrerá nos próximos anos. 

As filas de espera são enormes, não há agilidade nos atendimentos e pessoas com demandas urgentes não são atendidas. Infelizmente esta é a situação que mais de ¾ da população está submetida. 

O alto desemprego no país corrobora para a situação. Apesar de ser um gasto importante para as famílias, o custo com plano de saúde é alto e é muitas vezes cortado do orçamento em momento de crise. 

Além disso, diversas famílias só utilizam planos de saúde por conta do empregador, que muitas vezes concede o benefício aos seus funcionários. Quando o sujeito perde o emprego, perde também o plano de saúde e acaba não fazendo um novo plano individual ou familiar. 

Acontece que estamos no início de um ciclo de recuperação forte da economia. Com a recuperação da economia, diversos empregos serão gerados, como os dados recentes já estão mostrando. 

A recuperação dos empregos faz com que diversos planos corporativos passem a ser gerados novamente. Intermédica e Hapvida oferecem a solução para os planos corporativos, com a amenização da inflação médica. O empregador não tem mais que se preocupar com funcionários insatisfeitos com um plano de saúde ruim. 

E acredite, isso faz toda a diferença dentro de uma empresa. Oferecer o melhor suporte aos seus funcionários faz com que uma empresa saia de boa para excelente. Além disso, os melhores benefício atraem os melhores talentos. Como já diria André Ribeiro, da Brasil Capital: gente boa faz diferença. E gente ruim também faz. 

Some a isso o fato de que mesmo que as empresas não ofereçam o benefício, o cidadão que sai do desemprego e passa a ter renda, pode novamente fazer a aquisição de um plano de saúde individual ou familiar, o que gera um fluxo de receita para dentro da empresa. 

Novo panorama etário do brasileiro

A tendência demográfica brasileira tem mudado cada vez mais para um padrão mais próximo do observado nos países desenvolvidos, onde a população acima de 60 anos ganhou maior volume. 

Além disso, observamos nas últimas décadas um aumento substancial na expectativa do brasileiro, que ao viver mais, gastará mais com saúde. 

No geral, essa categoria é a que mais gasta com saúde. Ou seja, o mercado potencial está em expansão para as operadoras de saúde. A demanda será cada vez maior e vencerá a disputa as empresas de excelência que estiverem melhor preparadas. 

Oportunidade de consolidação

O setor de saúde é extremamente fragmentado no Brasil, com mais de 700 operadores espalhados por todo o país. De todo o mercado, Hapvida tem uma participação de 7,1%, sendo a segunda maior empresa em market share e Intermédica tem uma participação de 6,8%, na quarta colocação. 

Como já foi apresentado, o modelo de negócios das duas empresas é o vencedor neste mercado com inflação médica controlada, estrutura de incentivos alinhada e qualidade no atendimento. E elas já saíram na frente dos concorrentes, ganhando uma grandiosa escala sobre o restante. 

Tanto Hapvida, quanto NotreDame já saíram às compras em diversas vezes. A excelência operacional aparece também neste momento. Depois de fazer uma aquisição, a empresa deve realizar um trabalhoso processo de integração a fim de capturar sinergias. 

Podemos dizer que ambas as empresas fazem o estado da arte neste processo. Os processos de integração guiados por elas foram capazes de capturar sinergias em tempo recorde. 

A NotreDame foi uma empresa que surgiu dentro de um fundo de Private Equity da Bain&Co, uma das três maiores empresas de consultoria estratégica do mundo. Sabe aquela história da gente boa? 

Quando você tem ao seu lado os melhores consultores do mundo, pessoas que já passaram por diversos processos empresariais e já ajudaram as maiores empresas do país com suas demandas, essas integrações ficam mais fáceis e nisso a NotreDame tem vantagem frente à Hapvida. 

Isso não é, no entanto, uma crítica à Hapvida, que também tem um processo muito bem estruturado e consegue capturar sinergias de forma ágil. Apesar de um background de empresa familiar, a companhia tem diversos conselheiros independentes, além de um time de gestão altamente capacitado. 

Mas qual comprar?

Não é incomum encontrarmos ambas as empresas juntas nos portfólios dos mais renomados gestores de ações do Brasil. Então por que não as duas?

A Hapvida tem uma presença mais forte no nordeste, apesar de, através de seu processo de expansão, ter colocados os pés já nas cinco regiões do país. 

Além disso, o posicionamento de mercado da empresa tem um foco maior em vender planos de saúde baratos, acessíveis a qualquer um, o que configura à empresa um dos menores ticket médio do setor. Além disso, a empresa também tem força nos planos corporativos. 

Por oferecer planos mais acessíveis, a empresa tem um crescimento endereçável gigantesco, visto que a renda per capita do brasileiro ainda é baixa. Por ter sua operação verticalizada, a Hapvida consegue mitigar custos e por conta disso oferecer soluções mais baratas. 

A NotreDame por sua vez tem um foco de expansão em cinturões, fazendo aquisições ao seu redor e ir aumentando cada vez mais o raio deste cinturão. A empresa surgiu no estado de São Paulo e está ganhando cada vez mais relevância no sudeste. 

A empresa tem um foco muito forte nos planos corporativos, que oferecem uma fonte de receita mais previsível, o que ajuda no planejamento para outras aquisições, por exemplo. Atualmente, mais de 85% dos planos da empresa são corporativos. 

Os planos individuais ou familiares da Intermédica são mais caros, o que é possível pela presença massiva no sul/sudeste. Isso, no entanto, diminui o mercado potencial da empresa. 

Agora trago uma opcionalidade longuíssimo prazo. Em diversos conversas com gestores, já me foi ventilado a possibilidade de uma fusão entre as duas empresas. O smart money diz fazer sentido a fusão, visto que as empresas seriam complementares e teriam sinergias gigantescas a serem capturas. 

Se vai acontecer ou não, não tenho a capacidade de te dizer. É uma opcionalidade justamente por ser algo difícil de se prever e, consequentemente, a expectativa não está no preço de nenhuma das duas ações. 

O que já sabemos de antemão, é que saúde continuará a ser um serviço essencial. 

Insights: seus investimentos em 2020

Feita a introdução na semana passada, onde discorri sobre os principais fatos econômicos e políticos que devem acontecer ao longo de 2020, chegamos hoje a um maior nível de detalhe sobre as influências nas principais classes de ativos. 

É importante fazer novamente o disclaimer de que não quero aqui acessar o futuro e tentar adivinhar o que irá acontecer nos seus investimentos em 2020. O futuro é por definição física e mitológica, inacessível. Não se trata também de um exercício de adivinhação, visto que como já disse aqui, sou péssimo em fazer previsões, principalmente sobre o futuro. 

O que quero nas próximas linhas, é dar a minha opinião sobre o que acho mais provável que aconteça neste ano, sempre com a ciência de que na verdade, não temos certeza de nada e que por mais belo que possa parecer os acontecimentos abaixo narrados, eles podem simplesmente não acontecer e devemos estar preparados também para este cenário. 

Renda Fixa

O ano de 2019 foi atípico para os investimentos de renda fixa. A mais famosa classe de ativos de um país que sempre conviveu com juros nas alturas, foi definhando ao longo do ano e parece finalmente estar condizente com o resto do mundo. Explico. 

O histórico de juros alto no Brasil sempre fez com que o investidor pudesse ter ganhos da ordem de até 15% ao ano, basicamente sem correr nenhum risco, comprando títulos do governo através da plataforma do Tesouro Direto. 

Acredite você ou não, 15% sem qualquer forma de risco, é algo surreal e demasiadamente difícil de se alcançar, mesmo quando partimos para os investimentos com um pouco mais de risco. 

Não é difícil se deparar com um gráfico em que o CDI bate o Ibovespa ao longo da história. O Brasil era o país onde o investidor que não corria riscos, na média ganhava mais do que o investidor que corria os riscos da bolsa de valores. 

A literatura de finanças diz que quanto mais arriscado um investimento, maior deve ser o retorno esperado. No Brasil, o investidor que optava por mais risco, pagava ao invés de receber. 

A normalização da taxa de juros, aliado a uma extensa plataforma de reformas estruturais, fez com que a renda fixa, em especial as emitidas pelo governo, voltassem ao seu lugar normal, pagando nada mais do que retornos marginalmente acima da inflação, como deve ser. 

O Banco Central trouxe a Selic para seu menor patamar na história, aos 4,5%. Ao longo de 2020, pode haver um outra queda de 0,25%, o que encerraria o ciclo de quedas e deixaria o mercado esperando para um novo ciclo de alta, que não deve ocorrer este ano. 

Dito isso, para obter retornos que façam a diferença na sua rentabilidade final, o investidor terá de alongar os prazos e correr mais riscos. Em especial os vencimentos intermediários e longos ainda apresentam um gordurinha que pode fazer a diferença no final do ano. 

Prefira títulos com vencimento a partir de 2024. Existem diversas oportunidade de títulos prefixados e indexados à inflação a partir deste vencimento que apresentam um bom retorno.

A exposição ao risco em renda fixa pode ser feita a partir dos títulos de crédito privado, desde que de forma pulverizada, em diversos títulos. Além disso, é importante a exposição à bons emissores, que estão emitindo dívida para crescimento e não simplesmente para pagar outras dívidas. 

Ainda existem boas opções de títulos prefixados e indexados à inflação que estão mal precificados pelo mercado. Além de boa rentabilidade, caso sejam carregados até o vencimento, estes títulos podem apresentar uma boa oportunidade de lucro antes do vencimento, através do mercado secundário. 

Em certo momento do ano, a NTB-B50, título de inflação do governo em 2050, apresentava valorização superior a 50% no ano. Isso não acontecerá novamente, visto que o ciclo de corte de juros está próximo do fim e diversas opcionalidades já estão incorporadas no preço. 

A questão é que o mercado parece ter ficado relativamente pessimista com a inflação nos últimos meses de 2019. Isso fez com que o mercado passasse a enxergar altas nos juros ainda em 2020. 

Mas o que levou a inflação a acelerar no final do ano foram os choques de preços, os quais o Banco Central não está incomodado, visto que eles está de olho nos núcleos de inflação, que não consideram choques e ainda estão ancorados, corroborando para uma taxa Selic baixa. 

Multimercados

A classe que é representada por fundos de investimentos, é caracterizada por poder investir em qualquer ativo. 

Desde o início do milênio, estes fundos ganharam muita relevância, com ganhos vertiginosos no primeiro governo Lula, onde houve um grande queda de juros e os fundos puderam aproveitar isso através de apostas macro. 

Isso fez com que a fama dos Multimercados fosse de que eles só conseguem ganhar dinheiro em cenário de queda de juros, salvo raras exceções, como o Verde de Luis Stuhlberger, que também tinha maestria quando o assunto era câmbio. 

A verdade é que o cenário não é esse atualmente e os multimercados passaram a aproveitar cada vez mais o desenvolvimento da bolsa de valores para compor seus retornos. 

Vale dizer ainda que muitos fundos também sabem aproveitar a globalização e investem em diferentes países, principalmente em juros e moedas. 

Como estes veículos são livres para investir nas mais variadas classes de ativos, é importante que o investidor conheça o estilo de gestão no momento em que for investir em um destes. 

Não será difícil encontrar fundos com retorno excelente e pouca volatilidade nos últimos dois anos. O problema é que o cenário do último biênio foi de queda de juros e valorização massiva de ativos. 

Os juros não irão cair vertiginosamente a partir de agora e a valorização de ativos reais deve acontecer, mas deve ser feita a devida diligência para escolher os melhores cavalos. 

Não adianta, portanto, investir naquele fundo que apresentou um ótimo retorno nos últimos anos, investindo apenas na reprecificação dos títulos de renda fixa. Isso não irá mais acontecer e se o gestor não mudar sua alocação, o retorno do fundo será medíocre. 

O momento é de apostar em fundos multimercados com um viés maior de bolsa. Procure saber o background dos gestores e prefira os veículos que apresentam mais transparência. Se o fundo teve um retorno passado bacana, mas não apresentou de que forma isso aconteceu, então é melhor ficar de fora pois podem haver milhares de riscos escondidos. 

Prefira também os fundos com mandato para maior volatilidade, visto que os veículos que não têm este mandato, ficam muito amarrados e não podem colocar a estratégia para trabalhar a pleno vapor. 

Renda Variável

Esta é a classe que julgo ser a mais provável ganhadora de dinheiro dos próximos anos, através de ações e fundos imobiliários. 

Os ativos reais ganham muito valor quando os juros estão baixo e o governo deixa de por a mão onde não deve. Este é justamente o cenário atualmente. 

Em 2019 o Ibovespa apresentou uma bela valorização, mas ela foi causada totalmente pelos acontecimento de Brasília e a queda de juros. A partir de agora, devemos observar as ações se valorizando pelo crescimento de lucros das empresas, que deve vir de forma menos tímida a partir deste ano. 

Nos anos de crise, as empresas fizeram seu dever de casa e se tornaram mais enxutas e eficientes. Elas agora saem deste período ruim melhores do que entraram, uma vez que diversos concorrentes ficaram pelo caminho ou então foram incorporados. 

Isso faz com que o lucro potencial seja gigantesco. O país está na cabeceira da pista para decolar em 2020, o desemprego começa a diminuir, o consumo voltou de forma contundente após a Black Friday e o governo deve continuar fazendo sua parte em deixar a economia andar com as próprias pernas. 

Com este cenário, cada vez mais empregos serão gerados, os empresários irão tirar do papel os planos de investimentos das empresas e a roda da economia como um todo irá girar. Isso gera mais consumo, que aumenta o lucro das companhias e assim sucessivamente. 

O que é diferente de outras recuperações de crise, é que o principal motor da economia será justamente a economia privada. Com o governo fora da jogada, nenhuma demanda artificial será criada e o país pode crescer em seu ritmo adequado. 

Os juros baixos farão com que as pessoas possam ter acesso ao crédito, o que impulsiona o consumo e faz as empresas terem mais confiança para investir em projetos de expansão. 

Se em 2019 Brasília foi a responsável pela alta da bolsa, agora ela será coadjuvante. Se o governo ajudar e conseguir endereçar outras reformas em 2020, isso funcionará como catalisador para o crescimento e para a valorização dos ativos reais, como é o caso das ações e dos fundos imobiliários. 

Para o caso dos FIIs, também houve uma grande valorização em 2019, motivada por boas expectativas e queda de juros. Mas a procura por imóveis começará de verdade em 2020. 

A questão é que os projetos imobiliários são longos, a ponto que a demanda chega muito mais rápida que a oferta. Se a oferta permanece a mesma e a demanda aumenta, os preços irão subir. 

As vacâncias irão cair ainda mais e os aluguéis serão revisados para cima, aumentando o fluxo de aluguéis para o fundo e, consequentemente, para os cotistas. 

Dólar

Existe um ditado que diz que as previsões do câmbio foram criadas para humilhar os economistas. Se isso é verdade ou não, não nos cabe a discussão neste espaço. Fato é que previsões sobre o dólar são as mais difíceis e sem sentido de se fazer. 

O que quero oferecer a você, é uma das muitas explicações para um câmbio mais valorizado do que foi visto nos governos do PT. 

Como o Brasil sempre teve um juros muito alto, o investidor estrangeiro captava dinheiro lá fora e investia aqui para ter um alto ganho, sem riscos. Aquele mesmo cenário que foi discorrido na seção de renda fixa. 

Se o gringo capta lá fora e investe aqui, ele precisa trazer o dinheiro para o Brasil, onde ele irá vender seus dólares em troca de reais. Se há uma grande oferta de dólares no mercado, o preço dele cai e isso faz com que o câmbio brasileiro fique mais apreciado. 

Hoje o diferencial de juros entre Brasil e EUA é baixíssimo, ao ponto em que não compensa mais captar lá fora e investir aqui apenas para pegar este ganho sem risco. O real deixou de ser uma moeda de carrego, pois os ganhos sem riscos não existem mais por aqui. 

Outro fator que explica o dólar mais valorizado é o diferencial de crescimento. A economia dos EUA vai de vento em popa há 10 anos e ainda não mostrou sinais de que irá parar. Enquanto isso, a década perdida de 2010-19 apresentou crescimento real próximo a zero. 

Em um país com crescimento, os investimentos em ativos reais, como ações, por exemplo, costumam andar melhor, visto que o mercado acionário fica altista em períodos de expansão do produto. 

Por fim, o mundo anda meio nebuloso, com tensões geopolíticas espalhadas pelo globo terrestre. Os países emergentes estão sofrendo com guerras civis e situações econômicas críticas. O gringo tenta uma vez e toma porrada, tenta a segunda e toma outra porrada. Depois disso, ele quer um pouco de paz e volta para os países desenvolvidos, onde não há altos retornos, mas também não há risco de quebra. 

Quando o investidor estrangeiro tira dinheiro dos emergentes, ocorre o que é chamado de flight to quality, onde o investidor passa a alocar apenas em países de alta qualidade, ainda que tenha baixo retorno. 

Essas são três das milhares de explicações para um câmbio brasileiro mais depreciado. Dito isso, a taxa de câmbio de equilíbrio deve variar entre 3,90 e 4,20 realmente. 

Note que é uma banda relativamente alta e não estou nem dizendo que o câmbio terminará 2020 dentro deste intervalo. Como disse, as previsões para o dólar só nos fazem passar vergonha e o que devemos tentar fazer é apenas entender o que causa isso. 

O dólar funciona como uma boa proteção para sua carteira, visto que em momentos de estresse nos mercados, ele costuma se valorizar. Além disso, dólar é uma moeda forte e se tudo der errado, dólar ainda continua sendo dólar. E acredite, tudo pode dar errado. O que nos resta é estar devidamente protegidos. 

Insights: a economia em 2020

Passada a euforia da virada de ano, chegamos ao início, de fato, de 2020. Oficialmente o ano comercial começou na última quinta-feira, mas naquele espírito macunaímico preguiçoso, símbolo destacado por Mário de Andrade, o ano parece dar seu pontapé inicial apenas na segunda-feira que precede a primeira semana completa. O azar parece morar em anos de virada aos finais de semana. Sigamos. 

Como você deve ter ouvido das mais diversas fontes, 2019 foi um ano transformacional e foi responsável pelo alicerce da economia brasileira. Observamos diversas classes de ativos com valorizações expressivas. 

O que aconteceu em 2019

Fazendo uma síntese do que aconteceu, observamos o desenrolar dos fatos em Brasília e ficamos animados com os resultados obtidos. Apesar dos ruídos, a equipe econômica conseguiu endereçar aquela que talvez seja a principal reforma de nossa história republicana, com a aprovação da Reforma da Previdência. 

O tema dominou o noticiário por boa parte do ano e mudanças de cunho microeconômico ficaram para 2020. 

Enquanto isso, o crescimento esperado no início de 2019 não veio. Felizmente, a inflação também ficou ancorada. Tais feitos corroboraram para um corte de 2% na taxa Selic, que terminou o ano em seu menor patamar da história, em 4,5% ao ano. 

Este revisional de Selic para baixo foi outro fator que explicou a alta valorização dos ativos brasileiros. Ibovespa e IFIX, os dois principais índices de renda variável do país, representando as principais ações e fundos imobiliários, respectivamente, apresentaram valorizações superiores a 30% no ano. 

Enquanto isso, ao longo do ano tivemos diversos acontecimentos na disputa comercial entre China e Estados Unidos. As trocas de farpas ocorreram, mas ao que tudo indica, estamos perto da assinatura da fase um do acordo comercial. 

Os temores de recessão global aos poucos vão se afastando, com índices PMIs ainda tímidos, mas no campo positivo. 

Com os temores globais ao longo do ano de 2019, o ouro foi outra classe de investimentos que se beneficiou e teve uma valorização superior a 28%. 

No geral, para os ativos brasileiros, observamos uma valorização massiva, mas muito em função de expectativas dos acontecimentos em Brasília. Ações e fundos imobiliários se beneficiam muito de uma economia aquecida e de juros baixos e a antecipação do futuro guiou as valorizações observadas. 

Mas agora é o momento de olhar para 2020 e tentar entender o que podemos fazer com nossos investimentos. 

Não me entenda mal, não estou tentando fazer previsões sobre o ano. Tenho muita dificuldade em fazer previsões, principalmente sobre o futuro. O objetivo aqui é apenas discorrer sobre fatos que acredito que poderão impactar o mercado financeiro. Se eles vão mesmo acontecer ou se vão impactar de forma positiva ou negativa, só o futuro dirá. 

O segredo para viver em um mundo em que não entendemos já foi dado aqui: diversificação e noção de que entendemos pouco sobre o que ocorre daqui pra frente. 

Economia brasileira

O final de 2019 foi de otimismo com a economia brasileira. Guiado pelos resultados da Black Friday e do Natal, o consumo finalmente voltou a acelerar e o varejo comemorou o resultado destas duas datas de compras. 

O ano começou com as expectativas altas por parte dos agentes econômicos, mas o cenário não se desenhou como o esperado, já que os empresários estavam menos otimistas do que se esperava. Foi um primeiro semestre bem morno, com os desenrolares políticos tomando conta da agenda econômica. 

O segundo semestre foi mais interessante e semanalmente o crescimento do PIB foi sendo revisado para cima. O resultado oficial ainda será divulgado, mas o crescimento deve ser confirmado acima de 1%, algo que parecia difícil em meados de agosto. 

A confiança da indústria e do comércio aumentou e confirmamos isso com a criação de empregos formais, que a partir de setembro passou a aparecer de forma menos tímida. 

Esperamos que o crescimento acima de 2% finalmente apareça em 2020, apoiados nos dados apresentados acima. 

Enquanto isso, algumas reformas ainda devem ser aprovadas pelo governo para colocar o país de vez nos trilhos. Destaco três delas: Reforma Tributária, Pacto Federativo e Reforma Administrativa. 

As duas últimas ajudarão o governo em seu problema fiscal, enquanto a primeira será muito bem recebida pelos empresários. Uma simplificação tributária tornará o ambiente de negócios no país mais fácil, o que ajudará a se criar novos concorrentes, tanto nacionais, quanto internacionais. 

Este ambiente de competição é extremamente benéfico para o povo, uma vez que garante excelência nos produtos e serviços vendidos, sendo cobrado um preço justo. Além disso, gera novos empregos e arrecadação para o governo investir em área de alta necessidade, como educação, saúde e segurança. 

O governo também deve seguir com a privatização de algumas empresas, o que ajudará a limpar ainda mais sua folha de gastos e deixará à iniciativa privada o papel de dirigir empresas – que grande ideia, não?

O BNDES também deve começar a fazer desinvestimentos em suas empresas investidas, o que gerará um fluxo enorme de capital para dentro do banco, que poderá passar a dar crédito subsidiado à quem realmente necessita, que são as pequenas e médias empresas, ao passo que as grandes empresas devem se financiar através do mercado de capitais. 

A inflação assustou um pouco nos últimos meses do ano, mas deve terminar 2020 ainda abaixo da meta de 4,25% estabelecida pelo Banco Central. Vale dizer que o núcleo de inflação, que é uma medida para capturar a inflação, desconsiderando-se os choques de preços temporários, continua intacto e ancorado. 

A alta na inflação de novembro e dezembro de 2019 foi causada por choques nos preços de alimentos e de energia elétrica, que em geral obedecem a ciclos sazonais. Não houve uma mudança fundamental na dinâmica de oferta e demanda e os preços destes bens devem se normalizar ao longo do ano. 

Dito isso, o Banco Central não tem motivos aparentes para subir a Selic ao longo de 2020. Isso também não quer dizer que ela deve cair mais. Um corte adicional de 0,25% até é esperado pelo mercado em algum momento, mas não se surpreenda se ele não vier. 

Por mais que Roberto Campos Neto diga que o BC não olha para o dólar no momento de decidir sobre nossa taxa de juros, os constantes leilões de divisas feitos pelo Banco Central em momentos de alta expressiva da moeda levantam uma bandeira amarela. 

De qualquer forma, palmas para esta equipe do BC que foi capaz de trazer os juros para a mínima histórica. Na ausência de um período parecido em nosso passado, qualquer passo dado por esta turma deverá ser feito com base em muito estudo e de forma cautelosa. Não aguardamos muitas novidades neste campo ao longo de 2020. 

Economia mundial

Aqui a análise começa a ficar mais complicada, dada a quantidade de variáveis que se deve observar. O intuito aqui não será uma análise tão profunda, visto que existem tantos cenários possíveis, que provavelmente erraríamos feio se tentássemos prever algo com exatidão. 

Apesar disso, o Brasil não é uma ilha e os acontecimentos lá fora impactam o nosso país. 

A primeira coisa que devemos ficar de olho é a eleição americana em novembro. Apesar de parecer longe, em março já devemos começar a observar os acontecimentos referentes ao processo eleitoral, afetando os preços dos ativos no Brasil. 

Donald Trump parece ser o favorito para uma reeleição. Enquanto isso, o Partido Democrata deve ter eleições primárias conturbadas para escolher seu candidato. No momento, quatro concorrentes merecem destaque: Bernie Sanders e Elizabeth Warren, senadores e representantes da ala mais radical do partido; Joe Bidden, vice-presidente americano durante o mandato de Barack Obama e Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York. 

Os ruídos sem dúvidas irão aparecer. Prever qual presidente o mercado espera que seja eleito e qual o impacto da eleição de cada um é uma tarefa que eu não irei me propor a fazer, com o risco de virar piada com o fiasco dos meus palpites. 

Além disso, dizer que o resultado das eleições irá afetar a trajetória de crescimento brasileira me parece exagerado, ao menos neste momento. 

A guerra comercial entre China e Estados Unidos parece ter dado uma trégua. Era de se esperar. Na iminência de um processo eleitoral e com a necessidade de fazer Wall Street feliz, Donald Trump não poderia levar essa guerra para outro patamar. Não faria sentido algum. 

O FED também parece ter encerrado seu ciclo de corte de juros, visto que a economia americana não para de crescer. Abaixar ainda mais as taxas de juros seria correr muito perigo inflacionário e Jerome Powell parece não estar pronto para correr este risco. 


Na Europa, o crescimento insiste em ficar ancorado, mesmo com o juros no campo negativo – ou o correto seria: principalmente por conta dos juros negativos? – mas os índices de atividades parecem começar a apresentar um tímido crescimento. 

A saúde da economia global como um todo, apesar de não estar viril como esperávamos, não apresenta tantos motivos para preocupação de recessão, como era no início do ano passado. 

Aos poucos a economia vai se levantando da cama. A grande questão é o que ela fará após levantar. Mais do que nunca, existe uma névoa sobre o futuro econômico mundial. Se as pessoas já não estão mais pessimistas, elas estão longe de estarem otimistas. 

Novamente, os acontecimentos impactam sim, mas acredito que seja difícil um fato externo quebrar o atual bull market brasileiro, apesar de que certamente aparecerão manchetes que te farão acreditar que sim. 

O último acontecimento foi a morte de um importante general iraniano pelos EUA. As tensões e ameaças se elevaram e o temor agora se volta para um guerra não comercial, mas sim bélica. 

Como bom especialista em conflitos militares que sou, não irei tentar explicar a você os diversos motivos que podem ou não acarretar em uma guerra. Eu até acredito que possa sim acontecer, mas não apostaria nisso. 

Por mais que o ataque pode ter sido uma manobra eleitoral por parte de Trump, acredito que isto deva sair do noticiário conforme caminharmos ao longo deste ano. 

Mas isso nos lembra mais uma vez da importância de sempre termos proteções à nossa carteira. Na presença de um caos mundial, nada irá se valorizar mais do que o ouro. E não podemos descartar de forma alguma que um caos mundial pode acontecer a qualquer momento. 

No campo dos países emergentes, o Brasil se mostra cada vez mais como líder em potencial de crescimento, com uma robusta plataforma de reformas, mão de obra abundante e capacidade ociosa. 

Apesar disso, o gringo olha o cenário na América Latina e se espanta um pouco. Em diversos países estamos vendo crises nos governos e a população tem se revoltado em nossos países vizinho. 

A Argentina recentemente elegeu novamente um Kirchnerista em Alberto Fernández, indicando a volta da esquerda ao comando do país.

Como já dito, o Brasil não é uma ilha e depois de apanhar tanto nos emergentes nos últimos dois anos, o gringo certamente irá aguardar o desenrolar dos fatos no Brasil antes de voltar a olhar para o país, mesmo que isto signifique que ele irá perder a primeira pernada de valorização dos ativos. 

Outro fato que ainda afasta o estrangeiro do Brasil é a ausência do grau de investimento das agência de classificação de risco. Esta nota de crédito é requisito para muitos investidores institucionais estrangeiros. O panorama é positivo para a recuperação da nota, mas não podemos garantir que será em 2020. 

Conclusão

Conseguimos fazer aqui um resumo do que aconteceu em 2019 e nos preparar para os acontecimento econômicos em 2020. Ao longo do mês teremos um outro artigo explicando como estes acontecimentos poderá atingir cada classe de ativos.

Insights: montando sua carteira para 2020 Pt. III

Depois de apresentar a você o racional que nosso portfólio deve ter para os próximos anos e passar mais detalhadamente sobre a composição de renda fixa e fundos multimercados, chego hoje ao final desta série de três artigos. 

Nos resta dissecar os outros 50% da nossa carteira e onde ela deve ser alocada. 

Ações

O ano de 2019 foi de muito aprendizado no ambiente macro brasileiro. Iniciamos o ano lotados de otimismo, que se esvaiu conforte o calendário foi girando. 

Uma valorização de quase 10% da bolsa no primeiro mês do ano, acompanhado do recorde dos 100 mil pontos do Ibovespa em fevereiro nos fez trazer mais cedo do que deveríamos o discurso de que this time is different. 

Realmente fazia sentido, mas precisávamos passar por algumas provações antes que isso concretamente se materializasse. 

Com o passar do ano passamos a ter menos medo do que Jair Bolsonaro e sua trupe falam, aprendemos a lidar com o medo da Guerra Comercial entre as duas maiores potências do mundo e a possível recessão global que isto poderia causar – quando foi que isso acabou mesmo? 

Também aprendemos a confiar um pouco mais no pessoal do congresso, que claro, fez seu show e apareceu na mídia, apenas para aprovar com uma aceitação maior do que a esperada da Reforma da Previdência. 

O crescimento não veio, felizmente a inflação também não. O que veio e veio forte foi a queda de juros. Quatro reuniões consecutivas do Copom com corte de juros de 0,5% e repentinamente – será? – temos a Selic no menor patamar de sua história. 

Teríamos que passar por estes aprendizados ao longo do ano para que o caminho esteja pavimentado a partir de agora. Não vamos colocar o carro na frente dos bois, como se costuma falar no interior. 

Qual o efeito quase que imediato disso tudo? O número de investidores na bolsa dobrou em apenas um ano. Calma, ainda estamos abaixo do patamar de 1% da população brasileira investindo em ações, mas novamente, calma. 

Enquanto isso, o número de investidores em fundos imobiliários triplicou. Parabéns aos envolvidos. Estamos no caminho. 

Todos estes pequenos problemas, alguns meses atrás, assim que vieram à mídia anunciá-los, eram grandes demais para serem resolvidos. Ah esses poetas do apocalipse…

Indo ao que interessa, a grande beneficiada das mudanças estruturais que estão acontecendo no Brasil é justamente a renda variável. Ativos reais se valorizam na veia de juros estruturalmente baixos. 

Primeiro porque os projetos que eram inviáveis com taxas de juros acima de 10%, ficam muito mais palpáveis quando estamos no patamar de 4,5%. E não se deixe levar pela boa nova dos pessimistas. A inflação do último mês até assustou ao levar a projeção para a casa dos 3,8% – o que fizeram com o Brasil?

A questão é que esse aumento na expectativa de inflação foi causado principalmente pelos alimentos, que devem se normalizar em questão de preços ao longo dos próximos meses. O núcleo de inflação, que é o que importa no fundo, ainda está ancorado e corrobora para um patamar baixo de juros. 

Voltando às ações, as empresas tiveram que fazer a lição de casa na última crise. Na mesma narrativa de que precisávamos passar por uma provação em 2019 para que pudéssemos evoluir, os executivos que tocam as maiores companhias do país tiveram de quebrar a cabeça em planos estratégicos para sobreviver à crise. 

Em um esquema de antifragilidade, depois de ter passado por este período de dificuldades, estas empresas saem da crise ainda melhores do que entraram, pois agora sabem sobreviver caso a adversidade volte. O mesmo vale para o time de gestão, que foi forçado a usar a cabeça de formas inimagináveis e agora estão ainda mais preparados para os desafios que surgirão à frente. 

Uma parte do dever de casa das empresas foi enxugar ao máximo suas estruturas de custos, principalmente cortando gastos com mão de obra e desligando máquinas. 

Com o retorno da demanda prometido e esperado para 2020, as empresas começaram a contratar, mas terão um mão de obra mais barata em termos reais do que no passado, visto que o estoque de trabalho está muito alto. A famosa lei da oferta e demanda. 

A partir do momento em que as pessoas passarem a demandar produtos, é só ligar as máquinas novamente e a produção volta a acontecer a pleno vapor. Os custos continuarão baixos, mas a receita tende a aumentar, o que aumenta o lucro exponencialmente. 

Sabemos que no longo prazo, o preço das ações segue o lucro das empresas. Portanto podemos aguardar uma ótima valorização para este próximo ciclo.

Para os que possam argumentar que a bolsa já subiu muito e que, no geral, a bolsa já está cara, podemos pegar por exemplo a relação de preço/lucro do Ibovespa. Atualmente este múltiplo está no nível da média histórica. 

Acontece que o ciclo atualmente é sem precedentes e deveria negociar com prêmio para a média histórica. O Brasil nunca teve o potencial que tem agora, com o corte de gastos públicos e abertura cada vez maior da economia. 

Este cenário é inédito e o potencial é gigantesco. Se é algo nunca antes visto, o múltiplo de preço/lucro também deve ser de algo nunca antes visto. Existe um bom crescimento de lucro projetado para as companhias para os próximos anos, o que diz que para chegar neste ponto de máxima histórica, os preços devem subir ainda. 

Dado o cenário descrito acima, realmente julgo a renda variável como a classe que mais vai se beneficiar e deve ser muito ganhadora de dinheiro neste ciclo que está apenas começando. Esta é a justificativa para uma exposição de 35% às ações. 

Esta exposição pode ser feita de duas formas: comprando os papéis a vista no mercado, fazendo um stock picking; ou fazer a alocação através de fundos de investimentos em ações. 

O primeiro caso é indicado para quem já tem experiência no mercado e tem a disposição tempo e muita vontade de aprender. Investir em ações não é difícil, mas está longe de ser fácil. Exige muita dedicação e muito controle emocional para fugir das trapalhadas quando ver sua ação caindo 5% em um único dia. Quando cair 10%, 15% então…

Apesar disso, se você se sentir confortável, a exposição direta nas ações te livra de pagar as taxas de administração e performance presente nos fundos de ações. 

A segunda forma de exposição é feita via fundos e é indicado à maioria das pessoas, visto que em geral os investidores trabalham em outras atividades durante o dia, além de ter de alocar tempo para a família, capacitações, lazer, etc. 

Se este for o seu caso, o ideal é alocar estes 35% em, no mínimo, três fundos de ações. É interessante contar com três fundos long only, aqueles que podem operar apenas na ponta compradora devem ter ao menos 67% do patrimônio comprado em ações. 

Também vale a pena ter um ou dois fundos long biased, que em geral operam comprados, mas podem operar vendidos em ações também. Estes fundos tendem a se valorizar menos em momento de euforia na bolsa, mas sofrem bem menos quando a bolsa cai. 

Apesar do otimismo com as ações, o Brasil é o país onde os cisnes negros passam férias, pelo nosso passado, parece que as férias brasileiras e as europeias, dado a quantidade deles ao longo do ano…

Portanto, é sempre interessante estar alocado em ações, mas com um pouco de proteção, já dentro desta classe. 

Fundos Imobiliários

Assim como a relação entre ações em empresas, os FIIs são lastreados em ativos reais, mais precisamente imóveis. 

Essa classe ganhou muito em 2019, visto que os juros caíram 2% apenas neste ano. 

O próximo ano tem um ótima perspectiva para os fundos imobiliários. Tratando apenas das três maiores classes de fundos imobiliários, a volta do crescimento econômico deve impulsionar muito os aluguéis. 

Falando primeiramente dos fundos de shoppings, com o desemprego começando a diminuir e os juros em patamares baixos, o consumo das famílias deve explodir, visto que a renda disponível irá aumentar e a maior visibilidade econômica torna o acesso ao crédito mais fácil. 

Os shoppings no Brasil são verdadeiros centros urbanos onde se pode fazer tudo: compras, ir ao cinema, ir à agência bancária e ter uma consulta médica. Resumindo, as pessoas conseguem resolver grande parte de suas demandas dentro de um shopping. 

A abertura de lojas em shoppings em 2020 deve aumentar, o que irá aumentar a procura e logicamente, aumentará os preços cobrados nos aluguéis. 

A retomada da economia também impulsiona a abertura e expansão das empresas, que precisarão alocar seus funcionários dentro de escritórios. A procura por lajes corporativas também ajuda na revisão dos aluguéis para cima. 

Por fim, a procura por galpões logísticos também deve aumentar muito nos próximos anos, visto que uma economia aquecida demanda muito espaço para bens materiais, que serão alocados em grandes galpões para estarem preparados para atender a demanda das lojas. 

Todo o cenário ajuda a revisar aluguéis para cima, o que aumenta a distribuição por cota. Por ser obrigado a distribuir 95% de sua renda obtida de aluguéis, os FIIs são uma ótima opção para renda mensal. 

A destinação da renda fica a seu critério. O mais interessante seria o reinvestimento nesta ou em outras classes de ativos, mas não serei eu que te julgarei caso opte por gastar os proventos na sua próxima viagem. 

Proteções

Ah, como eu queria poder prever com exatidão o que acontecerá no futuro. Seria muito fácil, eu venderia tudo que tenho, iria ao banco pedir dinheiro emprestado e investiria tudo na ação que mais se valorizaria. 

Mas o futuro insiste em ficar lá na frente, inacessível aos meros mortais como eu e, presumo que, você. Nem mesmo o passado é um bom indicativo do que acontecerá no futuro. Novos fatos aparecem a todo momento para nos provar algo que sequer havíamos pensado. 

Se eu estou otimista com o ciclo econômico atual? Muito. Se eu acho que ele é inédito e tem um potencial gigantesco de geração de valor? Sem dúvidas. 

Mas é tudo exatamente isso. Eu acho. Eu não tenho certeza. E se você conhece alguém que diz ter certeza, fuja enquanto há tempo pois você acabou de encontrar um charlatão. Provavelmente ele nem investe, não tem skin in the game como eu e você. 

Se pudéssemos, de alguma forma, acessar o futuro e conhecer os ativos que mais se valorizaram, isso configuraria um almoço grátis e, em geral, eles não estão disponíveis. 

Assumida a nossa incapacidade em prever o futuro com exatidão, partimos então para nos proteger, caso o nosso cenário base não se concretize. 

Vamos então esclarecer o cenário base que eu tenho e que motivou a criação deste portfólio: Acredito que nos próximos anos os juros permanecerão baixos, acontecerá uma onda de concessões e privatizações, a economia brasileira irá se abrir cada vez mais, as reformas serão aprovadas, o Brasil ganhará novamente o selo de grau de investimento e caminharemos à liderança entre os países emergentes. 

Olha, é muito otimismo, inclusive para mim. É até provável que de tudo que falei acima, algumas coisas não se mostrem verdadeiras, mas nada que atrapalhe a tese. 

Mas se algo inesperado ocorrer a ponto de anular a tese de investimentos, é necessário que estejamos preparados. Por conta disso sugiro uma alocação de 5% em ativos que nos protegem em um cenário que as coisas saiam dos trilhos. 

O ouro é universalmente aceito como reserva de valor em todo o mundo. Onde quer que você vá, o ouro será aceito como moeda. Isso não é uma discussão, é uma verdade. Além disso, o metal precioso já mostrou que tem correlação negativa com o dólar, a ponto de ganhar valor em momentos de tensões mundiais. 

Pasmem, mas o ouro foi uma das classes de ativos que mais se valorizou globalmente em 2019. 

O dólar é a moeda fiduciária mais segura do planeta e também é ganhadora de dinheiro contra todas as outras moedas em momentos de tensão. Isso porque no pior dos casos, os investidores ao redor do mundo vendem tudo e correm para os Estados Unidos. Isso causa uma onda compradora no dólar, que joga o preço da divisa para cima. 

Lembre-se que o objetivo não é especular com o dólar e ganhar dinheiro. O que se diz é que as previsões do câmbio foram criadas para que os economistas fossem mais humildes – ou seria mesmo para humilhá-los sempre que tentam prever para onde vai a moeda? 

Desta forma, compre dólar e não se preocupe com o preço. Se cair um pouco ok, mas se tudo der errado, isso vai se valorizar muito e você vai agradecer a si mesmo por ter comprado dólares. 

Por fim, existe a possibilidade de fazer proteções com opções de venda fora do dinheiro, que se valorizam no cenário de queda expressiva das ações. 

Vale dizer que é interessante ter um pouco dos três. O ouro e o dólar podem ser acessados via fundos de investimentos, enquanto que as opções terão de ser compradas a parte. 

Esteja preparado para ver essa parcela do seu portfólio cair ou não sair do lugar. É inclusive interessante que isso aconteça, visto que isso é um indicativo de que o restante da carteira está indo de vento em popa. 

Ouro e dólar tem um carácter de convexidade muito interessante. Esses ativos nunca irão valer zero, mas em momentos de estresses eles se valorizam de forma expressiva. 

As opções podem virar pó, mas se forem acionadas, proporcionam um ganho exponencial.