Insights: encontrando negócios vencedores

 análise qualitativa no mercado de ações é tão importante quanto a análise dos números. Esses critérios subjetivos são importantes quando estamos fazendo nossas contas nas planilhas para saber se determinada empresa é um bom investimento ou não.

Warren Buffett cunhou as vantagens competitivas das empresas com o termo moat, que eram os fossos de água ao redor dos castelos medievais. Tais fossos funcionavam como fortalezas, que impediam que os castelos sofressem ataques dos inimigos. 

Podemos utilizar o termo para a análise de empresas, buscando entender quais sãos os moats daquela companhia. Uma empresa com barreiras a novos entrantes tem mais facilidade para competir e geralmente tem a capacidade de expulsar concorrentes ao longo do tempo, facilitando sua vida nos negócios.

Vale dizer que com o advento da tecnologia estamos vendo algumas vantagens competitivas caírem, o que me faz imaginar que determinadas vantagens passarão a existir apenas por um determinado período de tempo.

No momento da análise da empresa buscamos principalmente por algumas barreiras a novos entrantes e de que forma a empresa se encontra em relação a essas barreiras. São elas: reconhecimento da marca, switching costs (custos de troca), economia de escala e alta necessidade de capital.

Reconhecimento da marca

Essa vantagem competitiva se mostra um moat, visto que é muito difícil competir com uma companhia que tem uma marca extremamente estabelecida. 

Uma marca conhecida dá a empresa algumas vantagens. São elas: 

1) Desfrutar de certa estabilidade nas vendas;

2) Entrar em novos mercados de forma mais fácil, tornando a operação menos arriscada e custosa, uma vez que os gastos com marketing poderão ser menores neste novo mercado;

3) Poder de aumentar os preços de forma mais ágil, com o objetivo de:
3.1) se proteger de custos de produção maiores;

3.2) subir suas margens e melhorar sua rentabilidade, gerando mais lucro aos acionistas.

O exemplo no mercado brasileiro que temos é a Ambev, que tem um market share gigantesco no país, com produtos que são extremamente reconhecidos em todo o território nacional. 

Switching costs

Essa barreira a novos entrantes é muito evidente em empresas que prestam serviços de soluções empresariais. Altos switching costs seria uma dificuldade, seja por custo monetário, seja por custo de oportunidade, de se fazer a troca de um produto ou serviço. 

Imagine uma empresa que tem um sistema de gestão empresarial integrado entre todas as suas unidades, onde todos os funcionários têm acesso e já são treinados para realizar suas tarefas do dia a dia naquele sistema. 

Essa empresa dificilmente optará por trocar esse sistema, uma vez que os custos de treinamento, a dificuldade e demora de implementação, provavelmente criariam problemas para a administração da empresa resolver que não seriam necessários caso a troca não ocorresse. 

Isso explica o motivo pelo qual as empresas querem produzir bens e serviços que tornem seus clientes cada vez mais atrelados à sua marca. 

No Brasil temos poucos exemplos de empresas que criaram altos switching costs. O desenvolvimento dessa vantagem vai muito além de criar um sistema de gestão sem erros. Geralmente este sistema de gestão deve vir integrado de um ótimo banco de dados e a opção de plugar neste sistema diversas ferramentas que são oferecidas por outras empresas. 

Essa compatibilidade por vezes pode ser difícil de ser realizada, o que já diminui um pouco o custo de troca, uma vez que se um sistema começar a limitar a atividade da empresa, ela fará a troca, mesmo que o trabalho seja um pouco maior por algum tempo. 

Como exemplo de empresa que oferece sistemas e garantiu altos custos de trocas, temos a Oracle, que sempre ofereceu bancos de dados de qualidade indiscutível. Isso garantiu à empresa o poder de remarcar preços sempre que quisesse, uma vez que seus clientes dificilmente a trocariam por um provedor de dados de qualidade inferior. Além disso, os riscos de problemas seriam maiores, bem como os custos de se trocar um banco de dados da Oracle não valeria a pena. 

O preço dessa relação com os clientes parece ter chegado para a Oracle, uma vez que a Amazon vem fazendo um serviço formidável com o AWS. Diversas empresas já adotaram a solução que já representa uma fatia importante do faturamento da gigante americana.  

Para sair um pouco do relacionamento B2B, a Apple tem um custo de troca relativamente alto, uma vez que o cliente que adere a todos os produtos e soluções da empresa, dificilmente fará a troca de volta para Android, Windows e Spotify. 

Economia de escala

Essa barreira diz a respeito da economia de custos que os negócios podem atingir depois de certa escala, o que faz com que compense para a empresa realizar a atividade. 

Essa característica é encontrada na maioria dos grandes negócios. A questão é que ela só se torna extremamente importante em um negócio de margens baixas, como o setor de varejo. 

Por ter margens mais baixas, cada unidade a mais que a empresa vende, confere um incremento de margem para o resultado. Assim sendo, ela tem de produzir e vender uma quantidade bem alta de produtos, para que os custos fixos possam ir se diluindo. 

Empresas de varejo geralmente têm margens mais baixas por conta da baixa diferenciação de produtos, alta competitividade e altos custos. Os custos mais altos são um reflexo da competitividade, uma vez que se uma empresa decidir não comprar de determinado fornecedor, este fornecedor ainda terá a oportunidade de vender seus bens a outro varejista. 

Além disso, em alguns modelos de negócios, existem os custos de estrutura com lojas físicas, o que torna as margens ainda menores. 

Desta forma, a empresa que consegue vender mais, consegue diluir mais os custos fixos e vai aumentando a margem de contribuição de cada produto. Isso garante à empresa um aumento de margem, melhora da rentabilidade e consequentemente, mais lucro aos seus acionistas. 

O maior exemplo de economia de escala no mercado brasileiro é a Raia Drogasil, que opera com uma margem líquida bem baixa, ao redor dos 4% e só o consegue fazer por conta de sua rede de quase 2 mil farmácias no país. A empresa tem aproveitado sua superioridade para investir pesado no aumento da rede.

A empresa planeja abrir 240 novas farmácias no ano de 2019 e mais 240 no ano de 2020. Essa capilaridade garante à empresa a vantagem de utilizar suas farmácias como mini centros de distribuição, o que diminui o tempo de entrega nas farmácias e domicílios. Além disso, garante o abastecimento à localidades mais afastadas, a um custo mais barato. 

A economia de escala da RD ainda dá para a empresa uma importante margem de negociação com distribuidores de medicamentos. Uma vez que os remédios têm seus preços regulados pela Anvisa no Brasil, a compra com descontos por parte da companhia é um divisor de águas entre o lucro e o prejuízo. 

Alta necessidade de capital

Um negócio que exige alta quantidade inicial de capital pode desmotivar diversos possíveis competidores. Isso acontece pelos riscos envolvidos na operação. Uma empresa pode não gerar caixa suficiente em seus primeiros anos, o que pode colocar em xeque a vida da companhia.

Assim sendo, empresas que demandam alta necessidade de capital inicial e também de capital de giro, têm uma vantagem competitiva natural, que é difícil de bater. 

No Brasil vemos isso principalmente nas indústrias de siderurgia, exploração de petróleo e locadoras de veículos. 

Imagine uma empresa que deseja atuar na perfuração de poços de petróleo. Os equipamentos para iniciar a exploração são extremamente altos e os custos de se perfurar um poço idem. Após a perfuração, são exigidos estudos para se descobrir a viabilidade daquele projeto. 

A empresa sempre faz estudos prévios, mas a confirmação da viabilidade só vem após a perfuração do poço. Pode-se descobrir que determinada localidade não tem viabilidade de exploração, com os lifting costs muito altos, o que faz com que a empresa não tenha competitividade no mercado. Como commoditie, o preço do petróleo é dado via bolsa de valores, o que faz com que a lucratividade empresarial esteja na minimização de custos. 

Se determinado poço se mostra inviável, a empresa precisa iniciar todo o processo em um outro projeto. Note que até agora, a empresa não teve praticamente nenhuma geração de caixa e só queimou suas reservas. A necessidade de se encontrar um poço viável só vai aumentando e a captação de recursos fica cada vez mais difícil, uma vez que os credores vão perdendo a confiança na operacionalidade da empresa.

Por conta disso vemos tão poucas empresas atuando no ramo de exploração e produção de petróleo. Os altos custos faz com que poucos players tenham a capacidade de superar momentos difíceis. 

No Brasil, temos como exemplo de empresa que se beneficia da alta demanda de capital de giro, as companhias de locação de veículos. Localiza, Unidas e Movida têm a receita de como atuar no setor. 

Neste negócio, a troca de frota acontece aproximadamente a cada 18 meses, o que demanda alto capital de giro para renovação da frota. É impossível sobreviver neste ambiente de competição com uma frota mais envelhecida. 

As empresas até conseguem levantar caixa na venda dos seminovos, o que faz com que este segmento seja extremamente relevante para o sucesso da companhia. Apesar disso, o custo inicial existirá e a demanda por capital é alta no setor. 

Conclusão

Escolher empresas com base nestes quesitos apresentados acima, faz com que o investimento seja mais certeiro.

Isto não quer dizer, no entanto, que estes critérios apenas, farão com que a empresa ou a ação performe bem. Existem diversos outros fatores a serem olhados antes da compra da ação. 

As companhias vivem em ambientes de negócios complexos e avaliar as de maior importância é um processo chave para obter sucesso no mercado de renda variável. 

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