Insights: seus investimentos em 2020

Feita a introdução na semana passada, onde discorri sobre os principais fatos econômicos e políticos que devem acontecer ao longo de 2020, chegamos hoje a um maior nível de detalhe sobre as influências nas principais classes de ativos. 

É importante fazer novamente o disclaimer de que não quero aqui acessar o futuro e tentar adivinhar o que irá acontecer nos seus investimentos em 2020. O futuro é por definição física e mitológica, inacessível. Não se trata também de um exercício de adivinhação, visto que como já disse aqui, sou péssimo em fazer previsões, principalmente sobre o futuro. 

O que quero nas próximas linhas, é dar a minha opinião sobre o que acho mais provável que aconteça neste ano, sempre com a ciência de que na verdade, não temos certeza de nada e que por mais belo que possa parecer os acontecimentos abaixo narrados, eles podem simplesmente não acontecer e devemos estar preparados também para este cenário. 

Renda Fixa

O ano de 2019 foi atípico para os investimentos de renda fixa. A mais famosa classe de ativos de um país que sempre conviveu com juros nas alturas, foi definhando ao longo do ano e parece finalmente estar condizente com o resto do mundo. Explico. 

O histórico de juros alto no Brasil sempre fez com que o investidor pudesse ter ganhos da ordem de até 15% ao ano, basicamente sem correr nenhum risco, comprando títulos do governo através da plataforma do Tesouro Direto. 

Acredite você ou não, 15% sem qualquer forma de risco, é algo surreal e demasiadamente difícil de se alcançar, mesmo quando partimos para os investimentos com um pouco mais de risco. 

Não é difícil se deparar com um gráfico em que o CDI bate o Ibovespa ao longo da história. O Brasil era o país onde o investidor que não corria riscos, na média ganhava mais do que o investidor que corria os riscos da bolsa de valores. 

A literatura de finanças diz que quanto mais arriscado um investimento, maior deve ser o retorno esperado. No Brasil, o investidor que optava por mais risco, pagava ao invés de receber. 

A normalização da taxa de juros, aliado a uma extensa plataforma de reformas estruturais, fez com que a renda fixa, em especial as emitidas pelo governo, voltassem ao seu lugar normal, pagando nada mais do que retornos marginalmente acima da inflação, como deve ser. 

O Banco Central trouxe a Selic para seu menor patamar na história, aos 4,5%. Ao longo de 2020, pode haver um outra queda de 0,25%, o que encerraria o ciclo de quedas e deixaria o mercado esperando para um novo ciclo de alta, que não deve ocorrer este ano. 

Dito isso, para obter retornos que façam a diferença na sua rentabilidade final, o investidor terá de alongar os prazos e correr mais riscos. Em especial os vencimentos intermediários e longos ainda apresentam um gordurinha que pode fazer a diferença no final do ano. 

Prefira títulos com vencimento a partir de 2024. Existem diversas oportunidade de títulos prefixados e indexados à inflação a partir deste vencimento que apresentam um bom retorno.

A exposição ao risco em renda fixa pode ser feita a partir dos títulos de crédito privado, desde que de forma pulverizada, em diversos títulos. Além disso, é importante a exposição à bons emissores, que estão emitindo dívida para crescimento e não simplesmente para pagar outras dívidas. 

Ainda existem boas opções de títulos prefixados e indexados à inflação que estão mal precificados pelo mercado. Além de boa rentabilidade, caso sejam carregados até o vencimento, estes títulos podem apresentar uma boa oportunidade de lucro antes do vencimento, através do mercado secundário. 

Em certo momento do ano, a NTB-B50, título de inflação do governo em 2050, apresentava valorização superior a 50% no ano. Isso não acontecerá novamente, visto que o ciclo de corte de juros está próximo do fim e diversas opcionalidades já estão incorporadas no preço. 

A questão é que o mercado parece ter ficado relativamente pessimista com a inflação nos últimos meses de 2019. Isso fez com que o mercado passasse a enxergar altas nos juros ainda em 2020. 

Mas o que levou a inflação a acelerar no final do ano foram os choques de preços, os quais o Banco Central não está incomodado, visto que eles está de olho nos núcleos de inflação, que não consideram choques e ainda estão ancorados, corroborando para uma taxa Selic baixa. 

Multimercados

A classe que é representada por fundos de investimentos, é caracterizada por poder investir em qualquer ativo. 

Desde o início do milênio, estes fundos ganharam muita relevância, com ganhos vertiginosos no primeiro governo Lula, onde houve um grande queda de juros e os fundos puderam aproveitar isso através de apostas macro. 

Isso fez com que a fama dos Multimercados fosse de que eles só conseguem ganhar dinheiro em cenário de queda de juros, salvo raras exceções, como o Verde de Luis Stuhlberger, que também tinha maestria quando o assunto era câmbio. 

A verdade é que o cenário não é esse atualmente e os multimercados passaram a aproveitar cada vez mais o desenvolvimento da bolsa de valores para compor seus retornos. 

Vale dizer ainda que muitos fundos também sabem aproveitar a globalização e investem em diferentes países, principalmente em juros e moedas. 

Como estes veículos são livres para investir nas mais variadas classes de ativos, é importante que o investidor conheça o estilo de gestão no momento em que for investir em um destes. 

Não será difícil encontrar fundos com retorno excelente e pouca volatilidade nos últimos dois anos. O problema é que o cenário do último biênio foi de queda de juros e valorização massiva de ativos. 

Os juros não irão cair vertiginosamente a partir de agora e a valorização de ativos reais deve acontecer, mas deve ser feita a devida diligência para escolher os melhores cavalos. 

Não adianta, portanto, investir naquele fundo que apresentou um ótimo retorno nos últimos anos, investindo apenas na reprecificação dos títulos de renda fixa. Isso não irá mais acontecer e se o gestor não mudar sua alocação, o retorno do fundo será medíocre. 

O momento é de apostar em fundos multimercados com um viés maior de bolsa. Procure saber o background dos gestores e prefira os veículos que apresentam mais transparência. Se o fundo teve um retorno passado bacana, mas não apresentou de que forma isso aconteceu, então é melhor ficar de fora pois podem haver milhares de riscos escondidos. 

Prefira também os fundos com mandato para maior volatilidade, visto que os veículos que não têm este mandato, ficam muito amarrados e não podem colocar a estratégia para trabalhar a pleno vapor. 

Renda Variável

Esta é a classe que julgo ser a mais provável ganhadora de dinheiro dos próximos anos, através de ações e fundos imobiliários. 

Os ativos reais ganham muito valor quando os juros estão baixo e o governo deixa de por a mão onde não deve. Este é justamente o cenário atualmente. 

Em 2019 o Ibovespa apresentou uma bela valorização, mas ela foi causada totalmente pelos acontecimento de Brasília e a queda de juros. A partir de agora, devemos observar as ações se valorizando pelo crescimento de lucros das empresas, que deve vir de forma menos tímida a partir deste ano. 

Nos anos de crise, as empresas fizeram seu dever de casa e se tornaram mais enxutas e eficientes. Elas agora saem deste período ruim melhores do que entraram, uma vez que diversos concorrentes ficaram pelo caminho ou então foram incorporados. 

Isso faz com que o lucro potencial seja gigantesco. O país está na cabeceira da pista para decolar em 2020, o desemprego começa a diminuir, o consumo voltou de forma contundente após a Black Friday e o governo deve continuar fazendo sua parte em deixar a economia andar com as próprias pernas. 

Com este cenário, cada vez mais empregos serão gerados, os empresários irão tirar do papel os planos de investimentos das empresas e a roda da economia como um todo irá girar. Isso gera mais consumo, que aumenta o lucro das companhias e assim sucessivamente. 

O que é diferente de outras recuperações de crise, é que o principal motor da economia será justamente a economia privada. Com o governo fora da jogada, nenhuma demanda artificial será criada e o país pode crescer em seu ritmo adequado. 

Os juros baixos farão com que as pessoas possam ter acesso ao crédito, o que impulsiona o consumo e faz as empresas terem mais confiança para investir em projetos de expansão. 

Se em 2019 Brasília foi a responsável pela alta da bolsa, agora ela será coadjuvante. Se o governo ajudar e conseguir endereçar outras reformas em 2020, isso funcionará como catalisador para o crescimento e para a valorização dos ativos reais, como é o caso das ações e dos fundos imobiliários. 

Para o caso dos FIIs, também houve uma grande valorização em 2019, motivada por boas expectativas e queda de juros. Mas a procura por imóveis começará de verdade em 2020. 

A questão é que os projetos imobiliários são longos, a ponto que a demanda chega muito mais rápida que a oferta. Se a oferta permanece a mesma e a demanda aumenta, os preços irão subir. 

As vacâncias irão cair ainda mais e os aluguéis serão revisados para cima, aumentando o fluxo de aluguéis para o fundo e, consequentemente, para os cotistas. 

Dólar

Existe um ditado que diz que as previsões do câmbio foram criadas para humilhar os economistas. Se isso é verdade ou não, não nos cabe a discussão neste espaço. Fato é que previsões sobre o dólar são as mais difíceis e sem sentido de se fazer. 

O que quero oferecer a você, é uma das muitas explicações para um câmbio mais valorizado do que foi visto nos governos do PT. 

Como o Brasil sempre teve um juros muito alto, o investidor estrangeiro captava dinheiro lá fora e investia aqui para ter um alto ganho, sem riscos. Aquele mesmo cenário que foi discorrido na seção de renda fixa. 

Se o gringo capta lá fora e investe aqui, ele precisa trazer o dinheiro para o Brasil, onde ele irá vender seus dólares em troca de reais. Se há uma grande oferta de dólares no mercado, o preço dele cai e isso faz com que o câmbio brasileiro fique mais apreciado. 

Hoje o diferencial de juros entre Brasil e EUA é baixíssimo, ao ponto em que não compensa mais captar lá fora e investir aqui apenas para pegar este ganho sem risco. O real deixou de ser uma moeda de carrego, pois os ganhos sem riscos não existem mais por aqui. 

Outro fator que explica o dólar mais valorizado é o diferencial de crescimento. A economia dos EUA vai de vento em popa há 10 anos e ainda não mostrou sinais de que irá parar. Enquanto isso, a década perdida de 2010-19 apresentou crescimento real próximo a zero. 

Em um país com crescimento, os investimentos em ativos reais, como ações, por exemplo, costumam andar melhor, visto que o mercado acionário fica altista em períodos de expansão do produto. 

Por fim, o mundo anda meio nebuloso, com tensões geopolíticas espalhadas pelo globo terrestre. Os países emergentes estão sofrendo com guerras civis e situações econômicas críticas. O gringo tenta uma vez e toma porrada, tenta a segunda e toma outra porrada. Depois disso, ele quer um pouco de paz e volta para os países desenvolvidos, onde não há altos retornos, mas também não há risco de quebra. 

Quando o investidor estrangeiro tira dinheiro dos emergentes, ocorre o que é chamado de flight to quality, onde o investidor passa a alocar apenas em países de alta qualidade, ainda que tenha baixo retorno. 

Essas são três das milhares de explicações para um câmbio brasileiro mais depreciado. Dito isso, a taxa de câmbio de equilíbrio deve variar entre 3,90 e 4,20 realmente. 

Note que é uma banda relativamente alta e não estou nem dizendo que o câmbio terminará 2020 dentro deste intervalo. Como disse, as previsões para o dólar só nos fazem passar vergonha e o que devemos tentar fazer é apenas entender o que causa isso. 

O dólar funciona como uma boa proteção para sua carteira, visto que em momentos de estresse nos mercados, ele costuma se valorizar. Além disso, dólar é uma moeda forte e se tudo der errado, dólar ainda continua sendo dólar. E acredite, tudo pode dar errado. O que nos resta é estar devidamente protegidos. 

Insights: montando sua carteira para 2020

Com o fim do ano chegando, é comum que as pessoas já estejam com a cabeça na próxima década. Essa também é uma boa hora para você investidor repensar a forma como está investindo e se sua carteira está preparada para os anos vindouros. 

Não que devamos pensar em 2020 para o ano para fazer a vida e ficar milionário. Pode até ser que aconteça, mas o sucesso nos investimentos não se ganha em apenas um ano. Se trata de boas performances ano após ano, deixando com que a mágica dos juros compostos aconteçam. 

Todos gostariam de escolher uma ação que se valorizará 100% no próximo ano. Mas você já parou para pensar em uma carteira que rende 20% por cinco anos? Com os juros compostos, ao final do período o rendimento terá sido de 249%. Interessante, certo? 

Um rendimento de 20% ao ano é difícil de se conseguir, mas não é impossível. O segredo está na alocação. Se uma carteira estiver bem diversificada nas mais diferentes classes de ativos, além de diversificar também dentro dessas classes – não dá para escolher apenas uma ação e alocar todo seu capital nela – certamente estaremos mais perto de atingir o objetivo. 

A partir de hoje teremos uma série de artigos que te ajudarão a estar mais preparado para revisitar sua mente e a forma como você investe, além de lhe auxiliar a montar uma boa carteira para surfar os próximos anos. Tenha sempre em mente: investir é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. 

Diversificação

A regra número um para uma carteira ser julgada como boa é a diversificação. Ela é nosso único almoço grátis disponível, da qual devemos usar e abusar. 

A diversificação deve ser utilizada como uma forma de mitigar riscos e angariar retornos caso nosso cenário base não se concretize. E acredite, dentro os diversos cenários base que iremos traçar, uma parte considerável deles não irá se materializar. 

Uma carteira pulverizada nos ajuda a dormir tranquilo em um mundo que não entendemos. O futuro é incerto e insiste em ficar no… futuro. Como já dizia um velho sábio: “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”.

Ora, eu mesmo tenho um cenário interessante para 2020. Neste cenário as reformas passariam com alguma resistência no congresso – como sempre acontece -, o crescimento do PIB viria de forma mais surpreendente e a inflação convergiria para o piso da meta do BC. 

Apesar de uma inflação um pouco mais forte, o BC se sentiria confortável para manter os juros baixos, visto que o desemprego ainda continuaria alto e ainda haveria um hiato de produto. 

Neste cenário, as ações e o juro longo seriam novamente grandes vencedores.

Acontece que o nosso presidente pode simplesmente desandar a falar bobagens a ponto de atrapalhar o andamento das reformas no próximo ano. Paulo Guedes pode ficar de saco cheio e se decidir que depois de tudo que já fez na vida, não quer ficar aguentando desaforo e se despede do ministério da economia. 

A guerra comercial entre China e Estados Unidos pode não se resolver a tempo de salvar o mundo de uma recessão, o que prejudicaria muito o Brasil, uma vez que em momentos de recessão, o capital sai dos emergentes em um movimento conhecido como fly to quality, indo para o terreno seguro dos EUA.

Diversas coisas podem acontecer apenas neste próximo ano, sem falar de 2021, 2022… 

O que nos resta, portanto? Diversificar! Se tivermos uma carteira bem diversificada, conseguiremos nos expor aos mais diferentes cenários de retorno. Claro, se estamos mais otimistas com o Brasil e o mundo no próximo ano, iremos nos expor a ativos reais de forma mais contundente. 

Para o caso da renda variável, a diversificação fica ainda mais importante. Além do que já foi citado acima, o preço das ações no curto prazo obedecem a regras aleatórias, algo como o caminhar de um bêbado. Não significa, no entanto, que determinada ação seja boa ou ruim. 

No longo prazo, no entanto, o preço das ações acompanha o lucro das empresas que estão por trás delas. Se uma empresa gera lucro constantemente e tem boas perspectivas para o futuro, é comum que suas ações acompanhem no longo prazo. 

No curto prazo, no entanto, elas são afetadas pelos mais diferentes problemas técnicos e notícias. 

As empresas obedecem a ciclos empresariais, que são mais longos do que gostaríamos que fossem. Não é lógico pensarmos que uma nova direção em determinada companhia irá efetuar as mudanças necessárias e colher os resultados em apenas 3 meses. Essas mudanças demoram anos para terem efetividade. 

Esses são apenas alguns motivos para que você opte por uma carteira diversificada para os próximos anos. Em um futuro incerto, como sempre é, a única forma de conseguirmos enriquecer tranquilos, é diversificando. 

Sua carteira, portanto, deve ter títulos de dívida, ações, fundos imobiliários, fundos multimercados, dólar, opções e ouro. Se tiver a oportunidade, é interessante também ter participação em fundos de private equity. Com o atual patamar de juros, estes veículos passarão a ter mais representatividade e se mostram uma boa forma de angariar retornos. 

O gráfico acima mostra a alocação que julgo a ideal para surfar a onda de recuperação da atividade econômica brasileira. Para mim, essa é a solução ideal de carteira para qualquer que seja seu perfil de investidor. 

Não estou falando que escolhendo estas proporções, você terá um retorno garantido, mas certamente existe mais chance para que sim do que não. 

Para você que se julga com perfil mais agressivo nos investimentos, você pode subir mais sua fatia em ações, diminuindo a exposição em fundos multimercado e renda fixa. No entanto, não tenha menos do que 15% de cada um. Isso significa que você deve alocar no máximo 55% em bolsa, algo que já é bem arrojado e não indicado para a maioria. 

Caso não se sinta tão confortável com a alocação acima, você pode abaixar um pouco a alocação em ações e aumentar em renda fixa e fundos multimercados. Não deixe, no entanto, que seu medo te impeça pegar a grande onda de alta que a bolsa deve ter nos próximos anos. 

Cada classe de ativo presente em nossa carteira será melhor trabalhada ao longo das próximas semanas. Mas antes de finalizarmos, acredito que seja importante destacar um ponto. 

Saudosismo que atrapalha

O investidor um pouco mais velho pode se sentir incomodado com a alocação proposta acima. Ele pode julgar que os riscos sejam muito elevados, com uma alocação em renda variável de 45%. 

Tudo bem, eu não julgo. Esse mesmo investidor viu, por anos, a renda fixa pagar 12% ano ano, sem riscos e sem chacoalhadas de preço. Ao mesmo tempo, viu a bolsa de valores sofrer para bater a renda fixa e ainda contar com marcações a mercado instantâneas. 

A questão é que o que acontecia no Brasil, era, na verdade, uma anomalia de mercado. O correto segundo a teoria econômica é a renda variável pagar mais, justamente porque ela tem mais riscos. 

O movimento que aconteceu nos últimos meses veio justamente para corrigir esta falha. Ao mesmo tempo, a reforma da previdência foi aprovada e pelo menos mais três reformas estão engatilhadas para o próximo ano.

Estas reformas tiram do governo uma centena de gastos obrigatórios e dão mais liberdade orçamentária para colocar as dívidas em dia. A onda de privatizações também colabora para o fim dos gastos do governo em empresas. 

Tudo isso corrobora para uma maior abertura econômica e melhora muito o ambiente de negócios no Brasil. Com as engrenagens azeitadas, a taxa básica de juros pode permanecer em patamares baixos por um período prolongado de tempo. 

Com os juros baixos, a renda fixa irá pagar menos, visto que os títulos do governos estarão pagando muito pouco. Já foi falado aqui que alguns fundos de renda fixa apresentarão rendimentos reais negativos. 

Além disso, um menor patamar de juros torna diversos projetos mais viáveis, visto que o crédito estará disponível de forma mais barata. Isso impulsiona o consumo das famílias e beneficia, por exemplo, o setor de construção civil, que deve se aquecer nos próximos meses, junto com uma revisão para cima dos aluguéis. 

Com o cenário acima, os rendimentos de 1% ao mês sem riscos, se tornam inviáveis. A partir de agora, o investidor terá que se tornar menos avesso a riscos, assim como já é na vida. Cada escolha uma renúncia. 

Se na vida temos de arriscar para conquistarmos mais, nos investimentos é estritamente a mesma regra. 

Além disso, voltamos àquela velha máxima que prego aqui de que risco não é volatilidade. Utilizando o mesmo exemplo, uma debênture da Rumo tem exatamente o mesmo risco de perda de capital que uma ação da Rumo, apesar de a segunda ter uma volatilidade muito maior. 

Volatilidade é apenas um conceito técnico que é usado, de forma errada, como uma medida para risco. Não é porque não se mexe que não que é arriscado. 

Portanto, meu caro investidor, se acostume à assunção de risco. O que acontecia com a renda fixa no Brasil era um almoço grátis e na grande maioria das vezes, eles não estão disponíveis. 

Esta solução definitiva de carteira é diversificada justamente para a mitigação de riscos. 

Quando finalmente virarmos a chave de que o 1% ao mês está enterrado, poderemos dar o próximo passo rumo à uma melhor forma de se investir. 

Investir pode até parecer difícil e diversas vezes irão te fazer acreditar que realmente o é. Apesar disso, é mais ou menos como a vida. Se você realmente tiver vontade de fazer acontecer, estudar e saber fugir das grandes encrencas, o crescimento virá.

Como os fundos multimercado se encaixam na sua carteira

Com a queda da taxa básica de juros, ocorre na cabeça de vários investidores a vontade de otimizar melhor sua carteira. Afinal, é fácil encontrar anúncios sobre o como virou arriscado ser conservador. A afirmação é totalmente verdadeira, uma vez que os investimentos mais conservadores, como fundos de renda fixa, podem ter inclusive juros negativo. 

Pode parecer estranho, uma vez que em geral, o primeiro objetivo do investidor conservador é se proteger de riscos ao seu patrimônio. 

O fenômeno de juros negativos nos fundos de renda fixa ocorrem por conta das taxas de administração que por vezes são abusivas, principalmente se tratando dos veículos presentes dentro dos grandes bancos. 

Com uma Selic a 5%, fica difícil um fundo de renda fixa render mais do que 6% ao ano. Se descontarmos a taxa de administração que pode chegar a 4% ao ano, o investidor ficaria com 2%. Depois de subtraída a inflação e pago o imposto de renda, o investidor terá um poder de compra menor do que no momento em que investiu. 

Foco em plataformas abertas

O cenário exige uma inteligência financeira maior dos investidores, para que consigam balancear melhor sua carteira e se expor aos riscos certos. O primeiro passo é sair dos grandes bancos e passar a investir em plataformas abertas de investimentos. 

Os fundos disponíveis nas plataformas tendem a cobrar taxas mais condizentes com o justo. O segundo passo é entender de que forma uma carteira é bem montada.

O objetivo hoje é explorar os fundos multimercado e de que forma eles se encaixam na sua carteira. 

A carteira dos multimercado

Essa categoria de fundos tem a liberdade para investir em praticamente todas as classes de ativos financeiros: ações, juros, crédito, câmbio etc. Isso garante aos multimercados uma multidisciplinaridade interessante.

Como o ambiente de investimentos é muito grande, buscamos classes para categorizar os multimercados. O mais comum é encontrar a divisão por volatilidade. Existem, portanto, os multimercado de baixa, média e alta volatilidade. 

A carteira do investidor

O investidor, que agora sabe que precisa se expor um pouco mais aos riscos, decide que vai migrar uma parte de seus investimentos, que antes se concentravam na renda fixa, para os fundos multimercados. 

A atitude é muito bacana. No entanto, a escolha de produto é ainda mais importante. É comum neste caso que o investidor opte por um fundo multimercado de baixa volatilidade. Como ele sempre foi investidor de renda fixa, é provável que tenha aversão a chacoalhadas do preço, mesmo que isso possa significar nada no longo prazo. 

O racional é o seguinte: Vou colocar uma parte nos de baixa volatilidade, assim, consigo me expor um pouco mais a risco e tento ganhar um pouco mais. 

A verdade é que essa estratégia dificilmente fará muita diferença no resultado final da carteira. Como os multimercado de baixa volatilidade têm o mandato apenas para aquela categoria, eles fazem de tudo para que tenham oscilações pequenas em suas cotas. 

A maneira de fazer isso é se entupir de títulos de renda fixa de baixíssima volatilidade, sobrando pouco espaço para que o gestor possa correr risco de fato. Ora, não existe almoço grátis, se o gestor não correr riscos, ele também não entrega retorno. É por conta disso que os fundos multimercados de baixa volatilidade apresentam um retorno parecido aos fundos de renda fixa. 

Mas na verdade, o cenário começa a ficar crítico agora: algo que vem caindo em desuso nos fundos de renda fixa, são as taxas de performance. No entanto, ela ainda é praticamente unanimidade nos multimercados, independentemente da volatilidade. 

Desta forma, existem dois cenários para o investidor: caso seu fundo performe bem, ele receberá não muito mais do que na renda fixa, uma vez que o rendimento não será muito superior e a taxa de performance ainda vai comer uma parte da rentabilidade. 

O segundo cenário é o caso de o fundo performar mal. Neste caso, o investidor perde mais do que perderia nos fundos de renda fixa, uma vez que a volatilidade do multimercado é maior e ele se expõe mais a riscos. Infelizmente para o investidor, o gestor não paga a ele uma taxa em um ano de performance ruim. 

Como é possível perceber, o sistema de incentivos não está favorável do lado do investidor. 

Qual a alternativa?

Usando o mesmo exemplo, imagine que você investidor conservador decidiu que irá destinar 20% dos seus recursos para os fundos multimercados. Mas relembrando, o investidor conservador tem aversão às chacoalhadas na cota. 

A solução seria, portanto, destinar apenas 10% dos recursos aos multimercados. No entanto, este recurso iria para os multimercados média/alta volatilidade. O objetivo seria dar espaço para o gestor para que ele consiga montar posições de riscos, como apostas na bolsa de valores. 

O investidor ainda assim estaria protegendo seu capital, visto que 90% ainda continua na renda fixa. Os outros 10% podem ir para o risco. Não faz sentido colocar 20% em um fundo de baixa volatilidade, para que ele compre títulos de renda fixa majoritariamente e ainda cobre uma taxa de você para isso. 

O ideal é investir em um fundo de alta volatilidade, onde o gestor pode, além de ganhar dinheiro para ele, através das taxas de administração e performance, ganhar dinheiro também para você cotista. 

Extra: investir é uma maratona, não uma corrida de 100m

Fiz questão de colocar esta sessão aqui hoje. Frisei em alguns pontos deste artigo o quanto os investidores, por vezes, são averso à volatilidade. 

Primeiramente, cabe a definição de que volatilidade não é risco. Volatilidade apenas ilustra a interação entre compradores e vendedores. Risco aqui encaramos como risco de perda de capital. As torres gêmeas não tinham volatilidade alguma, mas será que podemos dizer que não existia risco algum de um atentado terrorista para derrubá-las? 

Agora partindo para o que realmente interessa, é muito importante que o investidor tenha a cabeça no longo prazo. Em geral, as chacoalhadas dos preços das ações ou das cotas dos fundos de investimentos, são apenas pequenos solavancos de uma grande tendência de alta. 

Não dá para imaginar que a subida será constante. Inclusive os maiores bull markets contam com quedas significativas no curto prazo, mas que se olhadas de longe, significam pouco em todo o processo de subida. 

Imagine o seguinte: até hoje, sua vida foi apenas formada de bons momentos? Acredito que seja mais provável que houveram alguns momentos de baixa, mas que você tenha evoluído tanto desde o dia em que nasceu, que olhando para trás, esses momentos de baixa são apenas pequenos vales. 

Nos investimentos é a mesma coisa: os mensageiros do apocalipse te venderão que o mundo está às portas de um crise nunca antes vista neste mundo. Em geral esse tipo de mensagem serve apenas para vender jornal e não passa de uma pequena turbulência.