Insights: porque você também deveria investir em ações

Existe uma sina no universo do mercado financeiro de que, pessoas com perfil conservador não deveriam investir em renda variável.

Esta regra parece ser marcada na pedra, visto que dificilmente encontramos pessoas que se dizem conservadoras com algum percentual da carteira em ações.

Não que eu concorde com tal afirmação, inclusive acho justamente o contrário. Mas vivemos no Brasil e sabe, tudo bem não ter renda variável na carteira quando se consegue uma rentabilidade de 15% ao ano em renda fixa. Com isso, dobramos nosso capital a cada cinco anos, nada mal!

Quis o destino, no entanto, que os ventos daqui passassem a soprar em outra direção. Em 2017 tivemos o início de um Brasil reformista, que busca cortar gastos públicos e acabar com os privilégios dos grupos mais favorecidos, como uma taxa de juros de longo prazo a custo de banana para as grandes corporações, enquanto o pequeno empresariado tinha de captar recursos a uma taxa de 20% ao ano no mercado.

As reformas que já foram postas em prática, juntamente à uma mudança de mindset nos principais órgãos econômicos do país, como Ministério da Economia, Banco Central e BNDES, possibilitaram que a Taxa Selic caísse ao seu patamar mais baixo da história, aos 4,25% ao ano.

E acredite, eu também não sou do time do “a renda fixa morreu”. Se eu acho que um portfólio inteligente e bem montado deve ter renda fixa? Sem dúvidas. Se eu acho que essa parcela tem de cair, no entanto? Sem sombra de dúvidas.

O Brasil rentista acabou! E pode apostar que ele se foi para talvez nunca mais voltar. A taxa de juros básica deve voltar a subir em 2021, mas nada que a leve muito acima da faixa de 6% ao ano. 

Se antes era comum investir unicamente em títulos de renda fixa com rentabilidades acima de 15% ao ano, atualmente isso não deve passar dos 4,5% bruto ao ano, e descontada a inflação você terá aproximadamente 1,25%aa de juro real. 

A questão é que, mesmo com este cenário atual, o “investidor conservador” continua com aversão à renda variável. O principal culpado nesta situação é o próprio investidor, que por diversos motivos, ainda não percebeu que aquele 1% ao mês na renda fixa se foi juntamente com a dona Dilma.

Com isso, ele simplesmente se fecha para qualquer apetite a risco, não se preocupando nem em entender como funciona minimamente a renda variável. 

Ora, se você trabalhou para juntar seu capital, o seu desejo será que você tenha uma aposentadoria tranquila, aproveitando as férias eternas e merecidas que têm, após se dedicar anos ao trabalho. No entanto, se você tiver um rendimento real pouco acima de 1% ao ano, receio em te dizer que na verdade, você vai apenas sobreviver. 

Um adendo, a poupança não entra nem em consideração neste momento. Com um juros real negativo, se você tem o dinheiro na poupança é melhor que você nunca deixe de trabalhar, visto que terá menos dinheiro quando mais precisar. 

Também não estou dizendo que todos devem ter o mesmo percentual de renda variável na carteira. Mas se você tem menos de 30 anos e nenhuma posição arrojada em sua carteira, é melhor abrir os olhos!

É comum encontrar os mesmos argumentos para essa aversão à renda variável: “é muito arriscado, não é para mim”. 

Na verdade, o que realmente incomoda é a marcação de preço instantânea. Para o investidor acostumado apenas com renda fixa, é catastrófico acordar com suas posições tendo uma queda diária de 4%.

Risco

A Teoria Moderna das Finanças diz que: quanto mais riscos você correr, maior será seu retorno potencial. Isso teoricamente explicaria um rendimento potencial baixo da renda fixa, onde você sabe que receberá, ao final do investimento, uma quantia maior do que investiu. 

Nas renda variável você abdica de saber ex-ante se receberá um valor maior ou menor do que o investimento, para que possa obter ganhos potenciais infinitos.

O risco, em geral, tem o papel assumido pela volatilidade que é o quanto determinado ativo financeiro oscila ao longo do tempo. As ações possuem marcação de preços em tempo real, e qualquer notícia sobre o ambiente macro ou micro afeta o preço desses papéis listados. 

A marcação à mercado dos títulos de renda fixa é bem mais ineficiente, visto que não existe um mercado organizado de bolsa para cotações em tempo real. Assim sendo, o investidor só saberá quanto o título dele está valendo, se ele quiser vendê-lo antes do prazo. 

Como em geral esses títulos são carregados até o vencimento, as oscilações de preço não afetam o investidor, visto que ele não observa a variação diária do papel, a não ser que precise liquidar antes do vencimento. 

É comum vermos uma empresa de capital aberto emitir títulos de dívida (como exemplo as debêntures). Os investidores conservadores adoram, visto que essas emissões chegam com taxas de retorno bem interessantes. 

Como exemplo atual, uma empresa do setor elétrico está emitindo um título (debênture incentivada) que pagará IPCA + 4,25% ao longo dos próximos 10 anos, isento de imposto de renda. Considerando o atual cenário de juros, é uma barganha, inclusive irei participar desta oferta, visto que, um retorno real de 4,25% ao ano não se encontra em qualquer esquina.

Fico ainda mais confiante quando olho para a empresa em si, que tem uma saúde financeira muito boa, e além disso é uma das empresas mais eficientes no seu setor, tem um modelo de negócios que garante muita economia no processo de exploração e produção de energia. Enfim, uma empresa excelente, que gera muito caixa e vai conseguir pagar essa dívida que está emitindo com um alto grau de certeza.

Agora, eu tenho noção de que receberei somente a taxa indicativa, nem um centavo a mais.

E se eu olhar para esta mesma empresa, sob a ótica do investimento em ações? Relembrando, ela é uma das melhores empresas do setor de energia, altamente eficiente e com um modelo de negócios bem montado. Sua receita é protegida por contratos de longo prazo com o governo federal e que até onde eu sei, ainda não encontraram nenhuma alternativa à energia elétrica.

Desde o início de janeiro de 2019, ela já apresentou uma alta superior a 175%. É exatamente a mesma empresa, mas são investimentos de classes diferentes. Não estou dizendo que a partir de agora, ela ainda subirá os mesmos 175%. 

Mas o preço das ações, no longo prazo, acompanham o lucro das empresas que estão por trás daqueles tickers que piscam o dia todo no home broker. 

Em qual situação eu não receberei o meu dinheiro de volta no título de renda fixa? Bom, se ao longo destes 10 anos, a empresa quebrar, eu perco todo o meu dinheiro. 

E nas ações desta mesma empresa? Ora, se a empresa quebrar ao longo do tempo em que tenho dinheiro nela, eu perderei todo o meu capital. 

Veja que simplificadamente, o risco é, na verdade, o mesmo. Este é um modelo simplificado, visto que no processo de falência da empresa, o primeiro a receber o valor residual é o governo, depois os credores e só depois os acionistas. 

Mas acredite, isso na verdade pouco importa, pois em geral não sobrará nada pra contar  história. E tudo isso acontece da mesma forma em um títulos de renda fixa ou em uma ação. Se trata da mesma empresa, ela tem o mesmo modelo de negócio, atua no mesmo setor. É tudo a mesma coisa. 

Mas e as oscilações diárias nas ações?

Existe uma frase no mercado financeiro que diz: “somente os vendedores de ações deveriam se preocupar com as quedas de curto prazo”. 

Eu, por exemplo, sou consumidor de cerveja. Se acontecer algo que faça o preço da cerveja caia, eu aproveito para comprar mais, não para vender as que já tenho guardadas em casa. 

Eu sei que a tendência é que o preço se normalize dentro de algumas semanas ou meses, então eu aproveito para comprar mais enquanto o preço está baixo. 

Com as ações deveria ser exatamente assim. Desde que investimos em cias de alto grau de qualidade, em geral não há o que temer com as quedas diárias. Elas, na verdade, são ótimas oportunidades para comprar mais de um ativo que você sabe que é bom, a um preço mais barato. 

Não existe sucesso de curto prazo. Tenha em sua carteira ações de extrema qualidade, com lucros recorrentes. Seu retorno virá dos dividendos no médio prazo e da apreciação das ações no longo prazo. 

E é só no longo prazo mesmo. Empresas obedecem a ciclos empresariais, que são longos e demorados. Não dá para cobrar nada no curto prazo. Ademais, no curto prazo o caminhar do preço das ações se assemelha a um caminhar de um bêbado, não sendo possível prever para onde o preço vai. 

No longo prazo, no entanto, o preço das ações acompanha o lucro das empresas. Então se temos empresas fortes, geradoras de lucro, não devemos ter problemas. 

Se você não tem tempo para olhar uma a uma cada ação que você deveria ter, entregue a gestão para um profissional através de um fundo de ações. 


E não precisa ser 100% da sua carteira. Comece com pouco, vá ganhando mais confiança conforme o tempo for passando e aumentando cada vez mais. 

Se você não olha todos os dias o rendimento do seu título de renda fixa, por que tem que olhar o da sua carteira de ações? As coisas não acontecem da noite para o dia. Elas demandam tempo. 

O que não podemos mais esperar é uma alocação de carteira ineficiente com nada ou quase nada em renda variável. O mercado mudou e se você não mudar junto, ficará para trás, e talvez daqui um tempo seja tarde demais para aceitar essa mudança.

Insights: montando sua carteira para 2020 Pt. III

Depois de apresentar a você o racional que nosso portfólio deve ter para os próximos anos e passar mais detalhadamente sobre a composição de renda fixa e fundos multimercados, chego hoje ao final desta série de três artigos. 

Nos resta dissecar os outros 50% da nossa carteira e onde ela deve ser alocada. 

Ações

O ano de 2019 foi de muito aprendizado no ambiente macro brasileiro. Iniciamos o ano lotados de otimismo, que se esvaiu conforte o calendário foi girando. 

Uma valorização de quase 10% da bolsa no primeiro mês do ano, acompanhado do recorde dos 100 mil pontos do Ibovespa em fevereiro nos fez trazer mais cedo do que deveríamos o discurso de que this time is different. 

Realmente fazia sentido, mas precisávamos passar por algumas provações antes que isso concretamente se materializasse. 

Com o passar do ano passamos a ter menos medo do que Jair Bolsonaro e sua trupe falam, aprendemos a lidar com o medo da Guerra Comercial entre as duas maiores potências do mundo e a possível recessão global que isto poderia causar – quando foi que isso acabou mesmo? 

Também aprendemos a confiar um pouco mais no pessoal do congresso, que claro, fez seu show e apareceu na mídia, apenas para aprovar com uma aceitação maior do que a esperada da Reforma da Previdência. 

O crescimento não veio, felizmente a inflação também não. O que veio e veio forte foi a queda de juros. Quatro reuniões consecutivas do Copom com corte de juros de 0,5% e repentinamente – será? – temos a Selic no menor patamar de sua história. 

Teríamos que passar por estes aprendizados ao longo do ano para que o caminho esteja pavimentado a partir de agora. Não vamos colocar o carro na frente dos bois, como se costuma falar no interior. 

Qual o efeito quase que imediato disso tudo? O número de investidores na bolsa dobrou em apenas um ano. Calma, ainda estamos abaixo do patamar de 1% da população brasileira investindo em ações, mas novamente, calma. 

Enquanto isso, o número de investidores em fundos imobiliários triplicou. Parabéns aos envolvidos. Estamos no caminho. 

Todos estes pequenos problemas, alguns meses atrás, assim que vieram à mídia anunciá-los, eram grandes demais para serem resolvidos. Ah esses poetas do apocalipse…

Indo ao que interessa, a grande beneficiada das mudanças estruturais que estão acontecendo no Brasil é justamente a renda variável. Ativos reais se valorizam na veia de juros estruturalmente baixos. 

Primeiro porque os projetos que eram inviáveis com taxas de juros acima de 10%, ficam muito mais palpáveis quando estamos no patamar de 4,5%. E não se deixe levar pela boa nova dos pessimistas. A inflação do último mês até assustou ao levar a projeção para a casa dos 3,8% – o que fizeram com o Brasil?

A questão é que esse aumento na expectativa de inflação foi causado principalmente pelos alimentos, que devem se normalizar em questão de preços ao longo dos próximos meses. O núcleo de inflação, que é o que importa no fundo, ainda está ancorado e corrobora para um patamar baixo de juros. 

Voltando às ações, as empresas tiveram que fazer a lição de casa na última crise. Na mesma narrativa de que precisávamos passar por uma provação em 2019 para que pudéssemos evoluir, os executivos que tocam as maiores companhias do país tiveram de quebrar a cabeça em planos estratégicos para sobreviver à crise. 

Em um esquema de antifragilidade, depois de ter passado por este período de dificuldades, estas empresas saem da crise ainda melhores do que entraram, pois agora sabem sobreviver caso a adversidade volte. O mesmo vale para o time de gestão, que foi forçado a usar a cabeça de formas inimagináveis e agora estão ainda mais preparados para os desafios que surgirão à frente. 

Uma parte do dever de casa das empresas foi enxugar ao máximo suas estruturas de custos, principalmente cortando gastos com mão de obra e desligando máquinas. 

Com o retorno da demanda prometido e esperado para 2020, as empresas começaram a contratar, mas terão um mão de obra mais barata em termos reais do que no passado, visto que o estoque de trabalho está muito alto. A famosa lei da oferta e demanda. 

A partir do momento em que as pessoas passarem a demandar produtos, é só ligar as máquinas novamente e a produção volta a acontecer a pleno vapor. Os custos continuarão baixos, mas a receita tende a aumentar, o que aumenta o lucro exponencialmente. 

Sabemos que no longo prazo, o preço das ações segue o lucro das empresas. Portanto podemos aguardar uma ótima valorização para este próximo ciclo.

Para os que possam argumentar que a bolsa já subiu muito e que, no geral, a bolsa já está cara, podemos pegar por exemplo a relação de preço/lucro do Ibovespa. Atualmente este múltiplo está no nível da média histórica. 

Acontece que o ciclo atualmente é sem precedentes e deveria negociar com prêmio para a média histórica. O Brasil nunca teve o potencial que tem agora, com o corte de gastos públicos e abertura cada vez maior da economia. 

Este cenário é inédito e o potencial é gigantesco. Se é algo nunca antes visto, o múltiplo de preço/lucro também deve ser de algo nunca antes visto. Existe um bom crescimento de lucro projetado para as companhias para os próximos anos, o que diz que para chegar neste ponto de máxima histórica, os preços devem subir ainda. 

Dado o cenário descrito acima, realmente julgo a renda variável como a classe que mais vai se beneficiar e deve ser muito ganhadora de dinheiro neste ciclo que está apenas começando. Esta é a justificativa para uma exposição de 35% às ações. 

Esta exposição pode ser feita de duas formas: comprando os papéis a vista no mercado, fazendo um stock picking; ou fazer a alocação através de fundos de investimentos em ações. 

O primeiro caso é indicado para quem já tem experiência no mercado e tem a disposição tempo e muita vontade de aprender. Investir em ações não é difícil, mas está longe de ser fácil. Exige muita dedicação e muito controle emocional para fugir das trapalhadas quando ver sua ação caindo 5% em um único dia. Quando cair 10%, 15% então…

Apesar disso, se você se sentir confortável, a exposição direta nas ações te livra de pagar as taxas de administração e performance presente nos fundos de ações. 

A segunda forma de exposição é feita via fundos e é indicado à maioria das pessoas, visto que em geral os investidores trabalham em outras atividades durante o dia, além de ter de alocar tempo para a família, capacitações, lazer, etc. 

Se este for o seu caso, o ideal é alocar estes 35% em, no mínimo, três fundos de ações. É interessante contar com três fundos long only, aqueles que podem operar apenas na ponta compradora devem ter ao menos 67% do patrimônio comprado em ações. 

Também vale a pena ter um ou dois fundos long biased, que em geral operam comprados, mas podem operar vendidos em ações também. Estes fundos tendem a se valorizar menos em momento de euforia na bolsa, mas sofrem bem menos quando a bolsa cai. 

Apesar do otimismo com as ações, o Brasil é o país onde os cisnes negros passam férias, pelo nosso passado, parece que as férias brasileiras e as europeias, dado a quantidade deles ao longo do ano…

Portanto, é sempre interessante estar alocado em ações, mas com um pouco de proteção, já dentro desta classe. 

Fundos Imobiliários

Assim como a relação entre ações em empresas, os FIIs são lastreados em ativos reais, mais precisamente imóveis. 

Essa classe ganhou muito em 2019, visto que os juros caíram 2% apenas neste ano. 

O próximo ano tem um ótima perspectiva para os fundos imobiliários. Tratando apenas das três maiores classes de fundos imobiliários, a volta do crescimento econômico deve impulsionar muito os aluguéis. 

Falando primeiramente dos fundos de shoppings, com o desemprego começando a diminuir e os juros em patamares baixos, o consumo das famílias deve explodir, visto que a renda disponível irá aumentar e a maior visibilidade econômica torna o acesso ao crédito mais fácil. 

Os shoppings no Brasil são verdadeiros centros urbanos onde se pode fazer tudo: compras, ir ao cinema, ir à agência bancária e ter uma consulta médica. Resumindo, as pessoas conseguem resolver grande parte de suas demandas dentro de um shopping. 

A abertura de lojas em shoppings em 2020 deve aumentar, o que irá aumentar a procura e logicamente, aumentará os preços cobrados nos aluguéis. 

A retomada da economia também impulsiona a abertura e expansão das empresas, que precisarão alocar seus funcionários dentro de escritórios. A procura por lajes corporativas também ajuda na revisão dos aluguéis para cima. 

Por fim, a procura por galpões logísticos também deve aumentar muito nos próximos anos, visto que uma economia aquecida demanda muito espaço para bens materiais, que serão alocados em grandes galpões para estarem preparados para atender a demanda das lojas. 

Todo o cenário ajuda a revisar aluguéis para cima, o que aumenta a distribuição por cota. Por ser obrigado a distribuir 95% de sua renda obtida de aluguéis, os FIIs são uma ótima opção para renda mensal. 

A destinação da renda fica a seu critério. O mais interessante seria o reinvestimento nesta ou em outras classes de ativos, mas não serei eu que te julgarei caso opte por gastar os proventos na sua próxima viagem. 

Proteções

Ah, como eu queria poder prever com exatidão o que acontecerá no futuro. Seria muito fácil, eu venderia tudo que tenho, iria ao banco pedir dinheiro emprestado e investiria tudo na ação que mais se valorizaria. 

Mas o futuro insiste em ficar lá na frente, inacessível aos meros mortais como eu e, presumo que, você. Nem mesmo o passado é um bom indicativo do que acontecerá no futuro. Novos fatos aparecem a todo momento para nos provar algo que sequer havíamos pensado. 

Se eu estou otimista com o ciclo econômico atual? Muito. Se eu acho que ele é inédito e tem um potencial gigantesco de geração de valor? Sem dúvidas. 

Mas é tudo exatamente isso. Eu acho. Eu não tenho certeza. E se você conhece alguém que diz ter certeza, fuja enquanto há tempo pois você acabou de encontrar um charlatão. Provavelmente ele nem investe, não tem skin in the game como eu e você. 

Se pudéssemos, de alguma forma, acessar o futuro e conhecer os ativos que mais se valorizaram, isso configuraria um almoço grátis e, em geral, eles não estão disponíveis. 

Assumida a nossa incapacidade em prever o futuro com exatidão, partimos então para nos proteger, caso o nosso cenário base não se concretize. 

Vamos então esclarecer o cenário base que eu tenho e que motivou a criação deste portfólio: Acredito que nos próximos anos os juros permanecerão baixos, acontecerá uma onda de concessões e privatizações, a economia brasileira irá se abrir cada vez mais, as reformas serão aprovadas, o Brasil ganhará novamente o selo de grau de investimento e caminharemos à liderança entre os países emergentes. 

Olha, é muito otimismo, inclusive para mim. É até provável que de tudo que falei acima, algumas coisas não se mostrem verdadeiras, mas nada que atrapalhe a tese. 

Mas se algo inesperado ocorrer a ponto de anular a tese de investimentos, é necessário que estejamos preparados. Por conta disso sugiro uma alocação de 5% em ativos que nos protegem em um cenário que as coisas saiam dos trilhos. 

O ouro é universalmente aceito como reserva de valor em todo o mundo. Onde quer que você vá, o ouro será aceito como moeda. Isso não é uma discussão, é uma verdade. Além disso, o metal precioso já mostrou que tem correlação negativa com o dólar, a ponto de ganhar valor em momentos de tensões mundiais. 

Pasmem, mas o ouro foi uma das classes de ativos que mais se valorizou globalmente em 2019. 

O dólar é a moeda fiduciária mais segura do planeta e também é ganhadora de dinheiro contra todas as outras moedas em momentos de tensão. Isso porque no pior dos casos, os investidores ao redor do mundo vendem tudo e correm para os Estados Unidos. Isso causa uma onda compradora no dólar, que joga o preço da divisa para cima. 

Lembre-se que o objetivo não é especular com o dólar e ganhar dinheiro. O que se diz é que as previsões do câmbio foram criadas para que os economistas fossem mais humildes – ou seria mesmo para humilhá-los sempre que tentam prever para onde vai a moeda? 

Desta forma, compre dólar e não se preocupe com o preço. Se cair um pouco ok, mas se tudo der errado, isso vai se valorizar muito e você vai agradecer a si mesmo por ter comprado dólares. 

Por fim, existe a possibilidade de fazer proteções com opções de venda fora do dinheiro, que se valorizam no cenário de queda expressiva das ações. 

Vale dizer que é interessante ter um pouco dos três. O ouro e o dólar podem ser acessados via fundos de investimentos, enquanto que as opções terão de ser compradas a parte. 

Esteja preparado para ver essa parcela do seu portfólio cair ou não sair do lugar. É inclusive interessante que isso aconteça, visto que isso é um indicativo de que o restante da carteira está indo de vento em popa. 

Ouro e dólar tem um carácter de convexidade muito interessante. Esses ativos nunca irão valer zero, mas em momentos de estresses eles se valorizam de forma expressiva. 

As opções podem virar pó, mas se forem acionadas, proporcionam um ganho exponencial. 

Insights: montando sua carteira para 2020

Com o fim do ano chegando, é comum que as pessoas já estejam com a cabeça na próxima década. Essa também é uma boa hora para você investidor repensar a forma como está investindo e se sua carteira está preparada para os anos vindouros. 

Não que devamos pensar em 2020 para o ano para fazer a vida e ficar milionário. Pode até ser que aconteça, mas o sucesso nos investimentos não se ganha em apenas um ano. Se trata de boas performances ano após ano, deixando com que a mágica dos juros compostos aconteçam. 

Todos gostariam de escolher uma ação que se valorizará 100% no próximo ano. Mas você já parou para pensar em uma carteira que rende 20% por cinco anos? Com os juros compostos, ao final do período o rendimento terá sido de 249%. Interessante, certo? 

Um rendimento de 20% ao ano é difícil de se conseguir, mas não é impossível. O segredo está na alocação. Se uma carteira estiver bem diversificada nas mais diferentes classes de ativos, além de diversificar também dentro dessas classes – não dá para escolher apenas uma ação e alocar todo seu capital nela – certamente estaremos mais perto de atingir o objetivo. 

A partir de hoje teremos uma série de artigos que te ajudarão a estar mais preparado para revisitar sua mente e a forma como você investe, além de lhe auxiliar a montar uma boa carteira para surfar os próximos anos. Tenha sempre em mente: investir é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. 

Diversificação

A regra número um para uma carteira ser julgada como boa é a diversificação. Ela é nosso único almoço grátis disponível, da qual devemos usar e abusar. 

A diversificação deve ser utilizada como uma forma de mitigar riscos e angariar retornos caso nosso cenário base não se concretize. E acredite, dentro os diversos cenários base que iremos traçar, uma parte considerável deles não irá se materializar. 

Uma carteira pulverizada nos ajuda a dormir tranquilo em um mundo que não entendemos. O futuro é incerto e insiste em ficar no… futuro. Como já dizia um velho sábio: “é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro”.

Ora, eu mesmo tenho um cenário interessante para 2020. Neste cenário as reformas passariam com alguma resistência no congresso – como sempre acontece -, o crescimento do PIB viria de forma mais surpreendente e a inflação convergiria para o piso da meta do BC. 

Apesar de uma inflação um pouco mais forte, o BC se sentiria confortável para manter os juros baixos, visto que o desemprego ainda continuaria alto e ainda haveria um hiato de produto. 

Neste cenário, as ações e o juro longo seriam novamente grandes vencedores.

Acontece que o nosso presidente pode simplesmente desandar a falar bobagens a ponto de atrapalhar o andamento das reformas no próximo ano. Paulo Guedes pode ficar de saco cheio e se decidir que depois de tudo que já fez na vida, não quer ficar aguentando desaforo e se despede do ministério da economia. 

A guerra comercial entre China e Estados Unidos pode não se resolver a tempo de salvar o mundo de uma recessão, o que prejudicaria muito o Brasil, uma vez que em momentos de recessão, o capital sai dos emergentes em um movimento conhecido como fly to quality, indo para o terreno seguro dos EUA.

Diversas coisas podem acontecer apenas neste próximo ano, sem falar de 2021, 2022… 

O que nos resta, portanto? Diversificar! Se tivermos uma carteira bem diversificada, conseguiremos nos expor aos mais diferentes cenários de retorno. Claro, se estamos mais otimistas com o Brasil e o mundo no próximo ano, iremos nos expor a ativos reais de forma mais contundente. 

Para o caso da renda variável, a diversificação fica ainda mais importante. Além do que já foi citado acima, o preço das ações no curto prazo obedecem a regras aleatórias, algo como o caminhar de um bêbado. Não significa, no entanto, que determinada ação seja boa ou ruim. 

No longo prazo, no entanto, o preço das ações acompanha o lucro das empresas que estão por trás delas. Se uma empresa gera lucro constantemente e tem boas perspectivas para o futuro, é comum que suas ações acompanhem no longo prazo. 

No curto prazo, no entanto, elas são afetadas pelos mais diferentes problemas técnicos e notícias. 

As empresas obedecem a ciclos empresariais, que são mais longos do que gostaríamos que fossem. Não é lógico pensarmos que uma nova direção em determinada companhia irá efetuar as mudanças necessárias e colher os resultados em apenas 3 meses. Essas mudanças demoram anos para terem efetividade. 

Esses são apenas alguns motivos para que você opte por uma carteira diversificada para os próximos anos. Em um futuro incerto, como sempre é, a única forma de conseguirmos enriquecer tranquilos, é diversificando. 

Sua carteira, portanto, deve ter títulos de dívida, ações, fundos imobiliários, fundos multimercados, dólar, opções e ouro. Se tiver a oportunidade, é interessante também ter participação em fundos de private equity. Com o atual patamar de juros, estes veículos passarão a ter mais representatividade e se mostram uma boa forma de angariar retornos. 

O gráfico acima mostra a alocação que julgo a ideal para surfar a onda de recuperação da atividade econômica brasileira. Para mim, essa é a solução ideal de carteira para qualquer que seja seu perfil de investidor. 

Não estou falando que escolhendo estas proporções, você terá um retorno garantido, mas certamente existe mais chance para que sim do que não. 

Para você que se julga com perfil mais agressivo nos investimentos, você pode subir mais sua fatia em ações, diminuindo a exposição em fundos multimercado e renda fixa. No entanto, não tenha menos do que 15% de cada um. Isso significa que você deve alocar no máximo 55% em bolsa, algo que já é bem arrojado e não indicado para a maioria. 

Caso não se sinta tão confortável com a alocação acima, você pode abaixar um pouco a alocação em ações e aumentar em renda fixa e fundos multimercados. Não deixe, no entanto, que seu medo te impeça pegar a grande onda de alta que a bolsa deve ter nos próximos anos. 

Cada classe de ativo presente em nossa carteira será melhor trabalhada ao longo das próximas semanas. Mas antes de finalizarmos, acredito que seja importante destacar um ponto. 

Saudosismo que atrapalha

O investidor um pouco mais velho pode se sentir incomodado com a alocação proposta acima. Ele pode julgar que os riscos sejam muito elevados, com uma alocação em renda variável de 45%. 

Tudo bem, eu não julgo. Esse mesmo investidor viu, por anos, a renda fixa pagar 12% ano ano, sem riscos e sem chacoalhadas de preço. Ao mesmo tempo, viu a bolsa de valores sofrer para bater a renda fixa e ainda contar com marcações a mercado instantâneas. 

A questão é que o que acontecia no Brasil, era, na verdade, uma anomalia de mercado. O correto segundo a teoria econômica é a renda variável pagar mais, justamente porque ela tem mais riscos. 

O movimento que aconteceu nos últimos meses veio justamente para corrigir esta falha. Ao mesmo tempo, a reforma da previdência foi aprovada e pelo menos mais três reformas estão engatilhadas para o próximo ano.

Estas reformas tiram do governo uma centena de gastos obrigatórios e dão mais liberdade orçamentária para colocar as dívidas em dia. A onda de privatizações também colabora para o fim dos gastos do governo em empresas. 

Tudo isso corrobora para uma maior abertura econômica e melhora muito o ambiente de negócios no Brasil. Com as engrenagens azeitadas, a taxa básica de juros pode permanecer em patamares baixos por um período prolongado de tempo. 

Com os juros baixos, a renda fixa irá pagar menos, visto que os títulos do governos estarão pagando muito pouco. Já foi falado aqui que alguns fundos de renda fixa apresentarão rendimentos reais negativos. 

Além disso, um menor patamar de juros torna diversos projetos mais viáveis, visto que o crédito estará disponível de forma mais barata. Isso impulsiona o consumo das famílias e beneficia, por exemplo, o setor de construção civil, que deve se aquecer nos próximos meses, junto com uma revisão para cima dos aluguéis. 

Com o cenário acima, os rendimentos de 1% ao mês sem riscos, se tornam inviáveis. A partir de agora, o investidor terá que se tornar menos avesso a riscos, assim como já é na vida. Cada escolha uma renúncia. 

Se na vida temos de arriscar para conquistarmos mais, nos investimentos é estritamente a mesma regra. 

Além disso, voltamos àquela velha máxima que prego aqui de que risco não é volatilidade. Utilizando o mesmo exemplo, uma debênture da Rumo tem exatamente o mesmo risco de perda de capital que uma ação da Rumo, apesar de a segunda ter uma volatilidade muito maior. 

Volatilidade é apenas um conceito técnico que é usado, de forma errada, como uma medida para risco. Não é porque não se mexe que não que é arriscado. 

Portanto, meu caro investidor, se acostume à assunção de risco. O que acontecia com a renda fixa no Brasil era um almoço grátis e na grande maioria das vezes, eles não estão disponíveis. 

Esta solução definitiva de carteira é diversificada justamente para a mitigação de riscos. 

Quando finalmente virarmos a chave de que o 1% ao mês está enterrado, poderemos dar o próximo passo rumo à uma melhor forma de se investir. 

Investir pode até parecer difícil e diversas vezes irão te fazer acreditar que realmente o é. Apesar disso, é mais ou menos como a vida. Se você realmente tiver vontade de fazer acontecer, estudar e saber fugir das grandes encrencas, o crescimento virá.